O pai dá a direção, indicando por onde pode ir. A mãe diz até onde, impondo o limite.

Existe um ciclo eterno, inseparável por natureza. Numa fase é pai e noutra, mãe. Eterno masculino e eterno feminino, oscilando entre yang e yin. Um e zero, um manifesto e uma potência. Para entender a vastidão do masculino temos de mergulhar na imensurável profundidade do feminino. Somente na conciliação de ambos podemos obter uma realização plena.

O pai dá a direção, indicando por onde pode ir. A mãe diz até onde, impondo o limite.

Pai Céu e mãe Terra, entre o fogo e a água, embriagam-se no hidromel das núpcias.

O masculinizante é yang, focado, ativo, brilhante, bruto e afiado. Impõe-se pela autoridade, a pontaria certeira e o objetivo. É preto ou branco, o sim é conciso e o não é claro. Decisivo, guiado pelo sonho, o propósito e a ação.

Esta energia do “pai” não é um sujeito, é uma força qualitativa inerente ao universo, empunhando uma espada na mão direita.

A energia da “mãe” não é uma forma, é uma potência que vibra latente a tudo, sustentando um escudo com a mão esquerda.

Este eterno masculino existe em todas as formas e seres, como força criativa que direciona ao caminho. Homem ou mulher, nesta matriz, não se cingem ao género, sendo este equilibro em yang a origem do impulso que anima a vida. É tensão, tesão e o voraz apetite que quer mover-se adiante. Penetrar de rompante o insondável, para extinguir-se como estrela cadente a rasgar os céus.

Manifesta-se como força gravítica, chuva que cai, vento que sopra, relâmpago e sol luminoso. É uma vela na noite, farol na escuridão, um ser que sai do útero para a vida.

Este eterno feminino nutre o vivo e o que virá. É carícia, cafune e o prazer que se expande, interligando as estrelas na vastidão.

A afeminação é periférica, recetiva, misteriosa, terna, suave e yin. Domina pela influência, o contexto e o subjetivo. Sendo colorida por natureza, vislumbra inúmeras possibilidades. Ponderada, é movida pelo amor, o momento fértil e a inteligência profunda.

Este eterno feminino nutre o vivo e o que virá. É carícia, cafune e o prazer que se expande, interligando as estrelas na vastidão.

Oculta-se na Terra sob os nossos pés, no pano de fundo da noite cerrada, no vazio imenso do céu e na lua que nos toca na escuridão. É uma pálpebra que se fecha, um silêncio que apazigua, um ser que regressa ao útero latente da vida.

Homem que é homem, não teme expressar a sua energia feminina.

“Atrás de um grande homem está uma grande mulher” e na fonte do eterno masculino está o eterno feminino. Um ser humano integral deverá conciliar e manifestar em si ambas as forças.

“Caramba Vasco! É preciso ser-se mesmo muito yang para usar essas calças”. Elogiava-me o professor Varatojo. As calças que vestia eram coloridas de vermelhos, vistosas e espampanantes. O comentário era na verdade, um elogio à minha masculinidade. “só mesmo um homem muito seguro de si, conseguiria andar tranquilamente em público com umas calças assim”, acrescentava ao comentário.

O arquétipo do “macho men” descreve intrinsecamente, um homem inseguro. Também a mulher que receia sair daquela referência da boneca ou de expressar algo mais feminino. O desequilíbrio é manifestado pelo receio, a recusa de sair do conforto do habitual. Confirmando-se por expressões como “Não era capaz de vestir algo assim. Morria de vergonha”. É tão insegura(o) que se agarra à formalidade e goza aquela(e) que é diferente. Junta-se na alcateia da normalidade e quando debita escárnio pelo diferente, está apenas a desviar a atenção da sua própria insegurança. Uma tremenda falta de tomates ou ovários, consoante o género. Não tem medo de expressar a sua energia, homem que é Homem, mulher que é Mulher. Quando somos capazes de parecer ridícula(o)s, sem que isso abale a estrutura de saber quem somos, estamos de parabéns! Temo-los no sítio.

Seguindo o Tao (caminho natural), manifestamos o nosso masculino e permitimos o nosso feminino. Estás pronta(o) para dançar?

Inspiramos em yang, ativando a força do céu, do espírito e do eterno masculino.

Expiramos em yin, ativando o regresso à terra, da matéria e do eterno feminino.

Pelo masculino aprendemos a pegar e a receber, ligando-nos à vida. No feminino aprendemos a ceder e a doar, ligando-nos ao útero, espaço vazio, que potencia a vida.

天地人”tian di ren”, um ser humano entre o Céu e a Terra, é referência comum no taoismo. Alude à necessidade de harmonizarmos o yin-yang, conciliando a energia masculina (céu) e a energia feminina (terra). Espírito e matéria. Visível e invisível. Forma e sem forma. A importância de Ser e também de Não Ser. De preencher e de dar espaço. De impedir ou permitir. Seguindo o Tao (caminho natural), manifestamos o nosso masculino e permitimos o nosso feminino. Estás pronta(o) para dançar?

Fotografia por Vasco Daniel © 2020