Há algum tempo atrás, fui assistir a uma série de palestras sobre Medicina Chinesa. Como estudante, e mais ainda como curiosa nata, acho que nunca devemos deixar passar a oportunidade de ouvir mestres e especialistas. Não é, de todo, perda de tempo. É sempre um ganho. Além disso, qual é a pior coisa que pode acontecer? Aprendermos coisas novas? Desaprendermos coisas que achávamos que sabíamos? Percebermos que afinal ainda somos uns burros e ignorantes? Nada disto é mau, muito pelo contrário.

(Bem, adiante.)

Vários terapeutas, professores, alunos e investigadores falaram sobre os mais diversos temas. O tema central da maioria das palestras, claro, é sempre a aplicação de protocolos de Medicina Chinesa (habitualmente combinações de pontos de acupuntura e fitoterapia) nas mais diversas patologias. Não há nada de errado com isto, todos nós agradecemos a partilha de conhecimento e a oportunidade de redefinir estratégias e métodos de atuação, ou até mesmo ter novas ideias/perspectivas para aplicar num caso mais difícil que apareça em clínica.

No entanto, este é o tipo de coisa que, quando em massa, me aborrece. Muito honestamente. Existem milhentos livros, blogs, artigos, etc, que descrevem combinações e pontos de acupuntura, fitoterapia, estudos sobre a sua aplicabilidade nas doenças, casos de sucesso, casos de insucesso, explicações exaustivas sobre síndromes, patologias, combinações inteligentes… E, embora sejam temas obviamente muito importantes, não são os únicos temas importantes. Isto é particularmente relevante dado que vivemos no Ocidente, tentando aplicar métodos de diagnóstico e tratamento nascidos numa cultura totalmente diferente, assentes num modo de pensar distinto e em bases filosóficas às quais estamos muito pouco habituados.

A questão aqui não é argumentar se a Medicina Chinesa é de facto ou não eficaz, ou se somos capazes ou não de compreender como funciona, porque certamente somos. Trata-se de reconhecer que existe mais do que apenas reduzir a protocolos de tratamento e patologias. Trata-se de reconhecer e discutir temas mais abrangentes, mais profundos. Ir à raiz, por assim dizer. A sensação que tenho sempre é que, ao sermos redutores desta forma (está na nossa natureza, incutido na nossa ciência e medicina), estamos a passar um bocadinho ao lado da ideia principal. E isto não é de todo criticar os palestrantes, terapeutas, ou professores. Não é insinuar que não sabem o que estão a fazer, ou a dizer. Não é isso, de todo. Eu sou apenas uma aluna, e ainda não percebo sequer nem um décimo desses temas. É simplesmente dizer que devíamos discutir tudo aquilo que sabemos, bem como o que não sabemos, e não apenas essa parte pequenina da Medicina Chinesa. Ver o todo, e não uma parte. Esta é uma ideia particularmente importante para passar aos estudantes, segundo a minha opinião.

De um modo geral, esta é a minha forma de pensar. E dado que sou uma bebé nestes temas, imensamente ignorante em muitos deles, até pode estar errada. Com o tempo perceberei e com certeza (des)aprenderei imensas coisas. Mas por agora, é assim.

De entre essas palestras, uma delas cativou-me particularmente. O palestrante, Prof. Ye Xiao, docente e investigador no Instituto Confúcio da Universidade de Coimbra, abordou alguns temas que tinham vindo a passar-me pelo pensamento nos últimos tempos.

A palestra dele foi centrada no tema “as 3 grandes vantagens da Medicina Chinesa“, e apresentava de forma resumida algumas das principais características da Medicina Chinesa, relacionando-as por vezes com a ciência e medicina ocidentais. Por outras palavras, porque é que a Medicina Chinesa não é irrelevante, e porque é que não é impossível complementar a nossa medicina com esta, ou vice-versa. Ou, pelo menos, foi assim que interpretei. Sobre este tema, ele publicou também um artigo muito interessante.

Segue-se um resumo das principais ideias que retirei. É importante salientar que são conclusões e notas que retirei ao ouvir a palestra e não reprodução in verbatim – literal ou textual – das suas palavras.

Algumas limitações das Ciências Biomédicas actuais, e o surgimento das terapias “alternativas”

A título de exemplo: em 1543, Andreas Vesalius publicou a obra De humani corporis fabrica, que ajudou a iniciar a revolução médica no ocidente: divide o corpo humano em diversos sistemas e componentes, e constituiu uma das bases para o início das disciplinas biomédicas. Estas têm sido aperfeiçoadas e utilizadas em medicina para o diagnóstico e terapias.

No entanto, esta abordagem possui algumas limitações e problemas inerentes, tais como:

  • Não é particularmente eficaz em doenças funcionais, síndromes, ou doenças crónicas;
  • A utilização de medicamentos resulta muitas vezes na manifestação de efeitos secundários, e em determinados casos, até ao desenvolvimento de microrganismos super resistentes;
  • Em determinados casos, os diagnósticos e tratamentos possuem custos muito elevados.

Estas questões, entre outras, levaram os pacientes a recorrer cada vez mais às denominadas medicinas e tratamentos “alternativos”, nas quais se inclui a Medicina Tradicional Chinesa. Esta caracteriza-se por não ser tão redutora, no sentido em que não se foca apenas num determinado aspecto do corpo, e não recorre a laboratórios nem tecnologias com custos elevados associados.

Três grandes vantagens da Medicina Chinesa

  • Segue o “caminho” da Natureza

Esta ciência tem em consideração a ligação do Homem com as leis da Natureza e tudo o que o rodeia, que observa, toca, ingere ou faz. Ar, comida, emoções, vestuário, informação, descanso, substâncias, entre muitas outras coisas: tudo isto influencia o estado de saúde do Homem, e é simultaneamente influenciado por este. Tudo está interligado. No microcosmos, conseguimos ver o macro, e vice-versa. O corpo humano pode ser entendido olhando para a natureza e para o universo.

Além disso, em termos ocidentais, em muitos campos conseguimos ver a influência do ambiente envolvente e outros factores na saúde e desenvolvimento humanos. Refiro-me, por exemplo, à epigenética. Adicionalmente, esta ligação entre o microcosmos e o macrocosmos é evidente, até na perspetiva ocidental. Por exemplo, no campo da física de partículas, ao dividirmos organismos em células, que se dividem em moléculas, que se dividem em atómos, que se dividem em protões, electrões, quarks, e assim sucessivamente, poderemos chegar ao nível mais básico da constituição de tudo – a energia em vibraçãoEisntein sabia que a matéria e a energia estão intimimamente relacionadas. Como raios é que o estado da energia não haveria de afetar o estado da matéria? A medicina chinesa, desde há milhares de anos, que compreende esta noção, e incorpora o estudo, tratamento e aprimoramento da circulação e vibração da energia no Homem, de acordo com os princípios da Natureza, e recorrendo a diversas práticas e métodos (falei num outro post sobre um exemplo disto, a respiração).

  • Tem uma sólida fundação filosófica

Esta característica confere à Medicina Chinesa a visão mais holística e abrangente, não só do ser e saúde humanas, mas de tudo. Existem quatro pilares onde a Medicina Chinesa está assente: o I Ching, o Confucionismo, o Daoísmo e o Budismo.

I Ching, ou “Livro das Mutações”, constitui o cerne filosófico da cultura e medicina chinesas. Adicionalmente, disciplinas como o Confucionismo e o Daoísmo – cuja base inclui também os ensinamentos do I Ching – tornaram-se os pilares mais básicos da medicina após a Dinastia Song. O Confucionismo está relacionado com os aspectos mais exteriores, e reflete-se no sistema médico e científico, nas instituições de ensino e de ética; trata-se de um sistema de “gestão”, no qual a regra de ouro consiste em “comportar-se de forma adequada e apropriada”. O Daoísmo, por outro lado, concentra-se nos aspectos mais interiores da natureza humana e na sua relação com a natureza, num modo de pensamento e de vida – seguir o Dao, ou o “Caminho”. Constitui a “espinha” académica da Medicina Chinesa, engloba as teorias e práticas “ecológicas”, tendo a natureza como fundamento do modo de vida, pensamento, dialética e raciocínio. Aqui podemos distinguir a obra Huang Di Neijing (o Clássico do Imperador Amarelo), um dos pilares académicos mais importantes da Medicina Chinesa, embora não se confine somente a este.

  • Possui prática e experiência clínica únicas e incomparáveis

A Medicina Chinesa foi desenvolvida e é praticada há milhares de anos, tendo sido testada e aperfeiçoada inúmeras vezes no processo. A China é um país de grandes dimensões e possui quase 20% da população mundial. Estes dois factores constituem uma característica importante em qualquer estudo científico: um histórico empírico longo e uma amostra significativa.

Além disso, e apesar das mais diversas alterações, reformulações e avanços científicos ocidentais, a sua teoria e prática mantiveram-se empíricas e ininterruptas, avançando continuamente no sentido do aperfeiçoamento. No entanto, isto não significa que não tenha progredido, muito pelo contrário; prima-se pela passagem do conhecimento às novas gerações, sobre o qual novo conhecimento foi construído.

Adicionalmente, e devido à empiricidade inerente a esta prática, a Medicina Chinesa possibilita a prevenção e tratamento de doenças mesmo sem se conhecerem os mecanismos biomédicos subjacentes, constituindo uma poderosa ferramenta científica e terapêutica. Adicionalmente, tem tido grandes avanços e conquistas até no mundo científico ocidental, das quais é possível destacar, por exemplo, o trabalho de Tu Youyou, detentora de um prémio Nobel, inspirado nos clássicos de Medicina Chinesa.

E foi mais ou menos isto.

Tratou-se de uma abordagem muito interessante (e diferente, dentro do contexto) ao tema dos fundamentos Medicina Chinesa, relacionando com a medicina e ciência ocidental. É um tópico de extrema importância não só para nós, estudantes de medicina e cultura chinesas, mas também para terapeutas, professores e para o público em geral.

É urgente uma interligação dos temas e conceitos de filosofia, ciência e medicina, tanto ocidentais como orientais. Até a ciência ocidental, um dia, chegará a essa conclusão (está aqui um artigo interessante sobre o tema).

Apesar de a Medicina Chinesa ser mais antiga e por muitos considerada mais “rudimentar”, é extremamente avançada no sentido em que tem em conta a presença e comunicação dos seres com a Natureza e o mundo em redor, sabendo que os movimentos e mudanças nuns irão invariavelmente afectar os outros. Engloba largas centenas de anos de experiências e evolução de práticas, conceitos e objetos de diagnóstico e tratamento, assentes em sólidos fundamentos de filosofia e ética. A visão do ser humano integrado no universo é extremamente rica, relevante e importante, não só para a ciência, filosofia, e prática clínica, mas também para uma vida mais plena e consciente.

Fonte original em Entre agulhas e provetas