Sakura

Sakura” é o nome dado à flor de cerejeira no Japão. Designando também, a época em que estas flores brotam das árvores, pelo breve período de uma semana antes de caírem. A Sakura torna-se assim uma metáfora da efemeridade da vida, da impermanência, da beleza, da renovação e da esperança.

Famílias inteiras e grupos de amigos reúnem-se em piqueniques, debaixo das copas das cerejeiras, para celebrar a vida, a ressurreição e o assinalar da Primavera. É semelhante ao que, em tempos antigos, deu origem à Páscoa, mas sem os coelhos a dar ovos, ou o Cristo da Cruz para a caverna e ressurreição. Embora a ideia do sacrifício seja aqui igualmente simbolizada, é importante esclarecer o significado original, de sacro-ofício, da confiança e da esperança, o ato de fé ou de elevada coragem, a partir da qual a vida torna-se possível. É preciso uma elevada coragem para abandonar a toca e o mundo conhecido. Porque se uma dose de coragem (ou abnegação) é requerida, mesmo quando sabemos o que devemos fazer, mais necessária é, quando tudo o que temos é desconhecimento e incerteza. Requer uma elevada dose de coragem e confiança, quando realizamos sem nenhum tipo de suporte ou indicação, e damos simplesmente, um passo de fé rumo ao abismo, o mergulho. A “Jornada do Herói” como bem ilustrou Joseph Campbell nos seus trabalhos, sobre o mito universal.

É exatamente isso que as flores de cerejeira realizam. Abandonam o interior conhecido da árvore para encarnarem como flores, por um breve e efémero período de vida. Todo o brotar da vida poderá resumir-se a este mergulho no desconhecido, este abandono da zona de conforto, a paz do descanso, a rotina, o normal, a morte, o ovo, o casulo, a caverna, a prisão e o seguro. Assim a flor abandona a caverna da morte para mergulhar e encarnar no desconhecido mundo da vida e da matéria, “lutando” pela vida para permanecer, num espaço por um tempo. É um sacro-ofício, um trabalho sagrado, um sacrifício que dá origem a um verdadeiro milagre.

Se por um lado é o mergulho no desconhecido que permite o brotar, por outro são os detalhes que definem a vida que toma existência. É a singularidade da manifestação, que a torna tão especial e significativa.

Toda a vida é a mesma na essência, no mundo sem forma ou imanifesto.

Toda a vida é singular na manifestação, o mundo das formas, com o seu próprio manifesto.

A vida é o que insurge-se nas brechas de um enorme deserto. Pois, a natureza é agreste na sua grande vastidão, o universo é inóspito, a morte é extensa e o caos é predominante. No entanto, algo impressionante sucede-se : os oásis surgem, as estrelas brilham no meio do negrume, o som manifesta-se do silêncio, a música insurge-se do ruido, o vazio dá origem à forma e a vida brota das brechas.

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Certos incidentes alinham-se de forma co-incidente, gerando centros de ordem. Desse singular acaso de dois incidentes que seguem o mesmo sentido, nasce um incidente que os transcende numa oitava acima, a serendipidade, o sopro, ou espírito que observa e ao realizá-lo gera-se a trindade da manifestação. A serendipidade ocorre a partir da fortuita oportunidade que é agarrada no tempo certo. Dando origem a algo único, especial e singular. A vida é a resistência e o alinhamento dos fenómenos no caos do universo. A força contínua que brota contra todas as probabilidades.

No daoísmo diz-se o Dao não tem preferências, nem afeição mas que tem bondade. Possuí naturalmente uma inclinação para o bom e é por isso que ganhamos existência.

É-nos dado não por criação, atribuição ou escolha. Sucede-se pela sua própria natureza, que não é moral nem imoral. Poderia dizer-se simplesmente amoral, da qual o amor é o perfume. Não argumenta porque não compara, porém segue leis simples, leis naturais. A ideia de um complexo guião escrito, através de um criador que arquiteta os destinos, nos estúdio do universo. Nas quais seríamos os protagonistas como as estrelas de Hollywood, reflete as ilusões da mente racional. Viciada pela sua própria natureza a atribuir significados e objetivos, à sua imagem.

A mente racional consegue conceber o limitado, o causal, o efeito, o objetivo, o objeto, o separado, o propositado e tudo o que é aparte. A própria ideia de que o objeto é uma ilusão e algo subjaz a um objetivo, transcende o pensamento racional que conforta-se na razão, na separação do moral e imoral, bem e mal, no juízo ou senso. É idealista porque agarra-se a ideias como se fossem objetos. Depois de dar a origem tamanho milagre, o próprio terá de desistir, abnegar-se para que a transcendência possa realizar-se.

Realizado o sacrifício, o sacro-ofício, do pensamento racional, o mesmo poderá ser integrado no pensamento não-dual. Desistindo e mergulhando do próprio para si. O mesmo poderá então ser integrado para lá da dicotomia da dualidade da razão. Termina o pingue-pongue, pousando-se a raquete. E quando toda a ideia assenta, surge o fluxo. O pensamento não-dual que flui no amoral, no Amor, no Bom ou Benevolente. Um amor que é incondicional porque não segue nem reage por condições. É desinteressado, não causal, desapegado e por isso se diz incondicional, ou livre.

O Dao tende para a bondade, e por isso também se diz que é benevolente. Não tem bem nem mal, porém tende a afiliar o bom, por consonância, por consequência natural. Esta será a sua virtude, a natureza do Dao que tudo possibilita misteriosa e milagrosamente. Possibilitando a vida, possibilitado a existência. Dá-se a oportunidade, que é agarrada no espaço e no tempo certo, tornando possível o impossível.

Este milagre é simbolizado pela sakura, aquele instante da primavera em que as flores podem manifestar-se brotando do eterno, e pelo efémero ser, por todo o sempre.

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2017-04-25T11:11:43+00:00

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