Expirar tudo para ser inspirado, doar e retornar. Num universo onde nada se perde e tudo se transforma, a retribuição é a lei natural que opera em toda a parte. O próprio tempo de vida é uma dávida que inevitavelmente temos de retribuir.

– Mas paga-se para estar no templo?!”

A descoberta de que é necessário pagar para estar num templo, que existem despesas e que é requerido um donativo pelos ensinamentos, tende a chocar vários questionadores. Existe a crença generalizada que será algo fornecido aos interessados a custo zero ou por um valor miserável.

Desde os 15 anos que tinha como sonho, viver num templo a Oriente durante um período da minha vida. Catorze anos passaram até o realizar e nesse período acreditava que para ingressar, seria sujeito a várias provações e que teria logo de iníco abdicar de todas as minhas posses. A realidade mostrou-me que não era preciso tanto, bastando o pagamento de propinas para cobrir os ensinamentos e as despesas. Foi com algum choque que posteriormente constatei que um vasto público tende a assumir exatamente o contrário. Existindo uma crença comum de que um templo e todo o mestre, deveria cobrir as despesas do aprendiz e que até se podem refugiar-se lá quando lhes apeteça e por um custo zero ou irrisório. Como se os monges estivessem desertos para converter fiéis ao seu clube e que seria um privilégio do mestre receber, ensinar e ajudar todo o pretendente, quase como se fosse uma obrigação deste. Acompanhando esta crença seguem-se os equívocos gerais, “Um verdadeiro professor não cobra”, “Se tem muitos alunos é que é bom”, “Conheço fulano que faz o mesmo a custo zero”, “Quem faz de graça é que está mesmo de coração”, “Se o custo é zero é que é mesmo boa pessoa e certamente bom no que faz.”, “quem corre por gosto não cansa e não cobra” entre outros preconceitos.

Imagine que alguém daria a sua morada a todos os pedintes que queiram gratuitamente e por tempo indeterminado, residir na sua casa, comer e que os ensine no que estes lhes apetecer. Uns não tem dinheiro para contribuir passando a vida a pedir a terceiros,  outros têm até mais do você mas preferem viver às suas custas para que possam invistir o dinheiro noutras conveniências. Ambos os grupos achando que é uma obrigação da sua parte recebê-los e que será um sovina, um bandido, um aproveitador de primeira se não o fizer e pior ainda, se lhes cobrar. O número de pessoas com esta mentalidade, que chegará à sua porta, rondará entre os cinco a cinco mil, por semana.

Se um mestre depender do discípulo não é digno do nome. Quando um potencial aprendiz começa a pedinchar ou a regatear, está a desvalorizar o que é facultado. Especialmente perante alguém que trabalhou arduamente para atingir o que agora realiza com mestria e que entregou tudo o que tinha para o aprender. Quando um potencial discípulo contribui sem hesitações e de boa vontade o que for necessário, realiza o maior elogio, dando provas de um genuíno apreço pelo que lhe poderá ser ensinado.

Se possui mais de três objetos, já não é classificado como um refugiado a acolher. Não querer pagar é simplesmente visto como uma forma de apego, de avareza e de uma certa tacanhez de espírito.

Também num templo existe um custo para viver, ensinar e manter os seus monges. Por vezes compadecem-se de um pobre coitado sem sapatos, sem comer, sem família ou amigos. Que é humilde, que não demonstra ser pedante ou pelintra, com uma grande vontade de aprender e disposto a dar tudo. São indícios de que a mente-coração já possui um bom alinhamento para ser desenvolvido e que precisa de refúgio. Ainda assim terá de pagar de algum modo, dando serventia a tempo inteiro de forma a cobrir parcialmente o que está a receber. É excluído desta categoria qualquer um que tenha sapatos, família, amigos, telefone, carro, conta no banco, formação, segurança social, um computador, entre outras. Se recebeu educação e foi bem alimentado, considera-se que tem as melhores condições para vingar. Se possui mais de três objetos, já não é classificado como um refugiado a acolher. Não querer pagar é simplesmente visto como uma forma de apego, de avareza e de uma certa tacanhez de espírito pois o indíviduo demonstra valorizar mais o material do que o imaterial que tanto elogia. Mesmo que fale numa direção, as ações demonstram outra. Como ensinar alguém assim?

Há que reforçar que estes sistemas não funcionam como uma organização católica, onde mesmo a paróquia mais remota, para além das esmolas e da insenção de impostos, recebe apoios de uma Sé, de um Vaticano e outros patronos que cobrem as despesas regulares inerentes a qualquer estabelecimento ou atividade. Muitos dos templos daoistas são geridos por um a poucos indivíduos que se encontram isolados e com pouco ou nenhum apoio exterior. Ermitas que renunciaram a tudo. Vivem em florestas, cavernas e por vezes em templos antigos que se responsabilizaram de manter ou restaurar por mais degradado que se encontre. Toda a ajuda é necessária para manter as paredes e telhados de pé, erigir uma estrutura caída, um campo de treino, entre outras pequenas necessidades diárias de maior ou menor custo financeiro.

Imagine um indivíduo que fosse perturbar mestres e monges, batendo à porta com exigências de que tinham de o ensinar vociferando “Eu pago !!”. Ou pior ainda, ir perturbá-los com a obstinada crença de que era uma obrigação moral do senhor de maior mestria, de ensinar a sua pessoa.

Imaginemos alguém que fica incumbido de manter o Mosteiro de Jerónimos sozinho e sem fundos. Econtrando-se o mosteiro localizado numa floresta viva, sujeito a todo o tipo de intempéries e ataques naturais dos elementos. Onde o único meio de acesso será indo a pé, subindo por um difícil trilho durante duas a quatro horas. Os guardiões destes templos são seres humanos que renunciaram à vida que tinham, entregando todos os bens que possuíam anteriormente para reunirem as melhores condições para praticarem e desenvolverem-se enquanto pessoas. Vivem com o essencial, umas poucas conveniências e escassos confortos. Sabendo isto, imagine um indivíduo que fosse perturbar mestres e monges, batendo à porta com exigências de que tinham de o ensinar vociferando “Eu pago !!”. Ou pior ainda, ir perturbá-los com a obstinada crença de que era uma obrigação moral do senhor com maior mestria de ensinar a sua pessoa, dar-lhe de comer, de dormir e tudo o mais. a troco de nada ou de um valor miserável. O que pode ser feito num indivíduo ainda tão encerrado em tais crenças? O método mais comum, continua a ser o de dar-lhe alguma compaixão, uma noite de guarida, algum alimento e em três dias mandá-lo literalmente, ir dar uma volta. Fazendo votos e preces, de que outros caminhos do mundo possam corrigi-lo o suficiente, para que se consiga ajudá-lo e desenvolvê-lo. Se o mesmo vier a desenvolver os requisitos mínimos e o destino o permitir, regressará em condições para tirar proveito do que pode ser ensinado e sem sugar os que lá habitam.

Cobre progressivamente menos até ser de graça, ao que retribui, compreendendo a necessidade de investir e largar tudo para alcançar o precioso cume.

Quem o realiza, ignora o desrespeito e a petulância das suas palavras e ações. Precisamente por ignorar, é também habitual que ao cometer as ofensas não intencionais, o mesmo tende a sentir-se indgnado quando lhe é cobrado por aquilo que o mesmo crê que lhes deveria ser providenciado a troco de nada ou de poucas patacas. Se conhecer alguém assim ajude-o com a primeira lição, fazendo-o pagar para que possa aprender. Quando este demonstrar que entendeu a humildade, pagando ou pelo menos empenhando-se a tal, prossiga. Na segunda lição ensine-lhe o gosto, o saber, a capacidade de avaliar corretamente e reconhecer o valor de algo. Quando este der provas de dispor-se por todos os meios a proteger o valor que lhe está a ser facultado, a constribuir para este, investir e investir-se, terá então ficado curado de todo o tipo de pedantismo e pelintragem. Prossegue-se então para a terceira lição: a lei da retribuição da energia, também conhecida por gratidão, obrigação ou ato de bem agir. Há medida que o discípulo investir mais e der mostras de ter atingido o profundo entendimento dos termos grato, obrigado e bem-haja, cobre progressivamente menos até que seja de graça ou apenas o tributo necessário para assegurar a sustentabilidade e resiliência do essencial. Uma vez que o discípulo tenha entendido a lei da retribuição, a necessidade de investir e largar tudo para poder alcançar o precioso cume, terá entendido verdadeiramente a gratidão e como tudo está interligado.

Comece aos poucos a pagar com gosto e fazendo-se pagar no que faz com gosto. No que faça sem gosto, procure não cobrar pois pouco valor estará a retribuir.

Se este age em conformidade com o entendimento, ensine-lhe a quarta lição: Não obrigado. Perdoe-lhe a dívida e libere-o de agradecer. Até lá ajude-o, fazendo-o pagar tanto quanto o necessário para libertá-lo de todo a dívida, apego, avareza, receio e contradição.

Comece aos poucos a pagar com gosto e fazendo-se pagar no que faz com gosto. No que faça sem gosto, procure não cobrar pois pouco valor estará a retribuir. Mude graduamente para um caminho mais natural. Queira contribuir, para um mundo em que cada um é melhor pago quanto mais gostar do que faz.

Fotografia por Wang Zong © 2013, tirada em Shen Nong Jia, Casa do Divino Agricultor (shen nong autor do primeiro clássico sobre plantas terapêuticas Shen Nong Ben Cao jing). No rigoroso inverno de Wudang, o Li Shifu (Mestre Du Song Feng) do Templo dos Cinco Imortais demonstra um dos passos essenciais no Taiji e a correspondente aplicação marcial do mesmo.

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