Acordo de madrugada e o relógio assinala a mesma hora das últimas noites. Também a lua espreita, pelo mesmo ladrilho da janela e ao fundo escuto novamente um cão a ladrar. Intrigado pela coincidência deste mistério, mergulho novamente no ciclo do sono.

A Terra gira oscilando entre dia e noite. O sol sobe e as flores desabrocham, os pássaros discorrem as notícias da manhã e a súbita claridade agita os fotões no ar. Enquanto a geada se evapora uma joaninha lava a cara numa gota de orvalho. Os corpos contraem-se, a pulsação aumenta, os intestinos despertam e a tensão arterial eleva-se com o sol. Uma luz branca e alaranjada preenche agora o cenário, a temperatura sobe e a vida acontece em triliões de narrativas por todo o planeta. Pela noite, adormecemos para nos reunir num sonho coletivo. Os guardiões despertam, é tempo de protegerem aqueles que dormem. A lua brilha no alto e o vácuo interliga sonhos em constelações familiares.

Um, dois, três, 365 dias de vinte e quatro horas. Um, dois, três, quatro mil milhões de anos a girar sobre si, alternando entre yin e yang. Mais de um bilião de dias, ciclos contínuos de 24 horas, seguindo sempre o mesmo padrão. Ascensão, expansão, queda, contração, despertar, ascensão… encaixam-se respetivamente, nas cinco fases: Árvore, Fogo, Solo, Metal e Água. 24 sobre 24, sem nunca falhar, sem nunca atrasar. Senhoras e senhores, temos uma vencedora do prémio da assiduidade e da pontualidade, aplausos para a Terra. Toda a vida, incluindo a dos seres humanos, brota, emerge e desenvolve-se deste movimento. Todo o corpo e funções internas humanas sincronizam-se por este padrão tão certo como o planeta girar. Ciclos Circadianos, Relógio Biológico, Cronobiologia ou os Doze Ramos Terrestres, são apenas alguns dos nomes deste padrão.

Um ser humano sincroniza-se pelo ciclo circadiano, assim como um girassol, um urso, uma mosca, uma batata ou uma bactéria. Para vingar neste planeta, toda a biologia teve de sincronizar-se ao ritmo deste. As formas de vida que não entram no passo são empurrados para fora da pista da evolução.

As expressões vão mudando, mas o ritmo toca igual para todos. Entender os ciclos circadianos é como dançar conhecendo a música que está a tocar.

Em 2016 tirei meio ano sabático para investigar os ciclos. Foram centenas de horas mergulhado em referências, históricos, clássicos orientais, artigos científicos, gráficos e esquemas, que fizessem alusão a fenómenos no corpo em função de certas horas do dia. Poderia ter aproveitado esse tempo para fazer a tese de doutoramento, no entanto desde 2007 que ambicionava realizar um mapa detalhado sobre este tema. Reunidas as condições financeiras e de vida, pude então dar-me a licença e autofinanciar-me para a obra em curso. Ao cruzar os dados dispersos de fontes aleatórias, o puzzle começou a revelar-se. Uma sinfonia invisível que nos vai dando um ritmo interno ao longo do dia e influenciando de forma invisível, a forma como vivemos e nos sentimos em cada período. As expressões vão mudando, mas o ritmo toca igual para todos. Entender os ciclos circadianos é como dançar conhecendo a música que está a tocar.

Os antigos chineses referem este padrão nos Doze Ramos Terrestres. Interligando órgãos, funções, humores e outras disposições que nos vão invadindo ciclicamente, ao longo de 24 horas através de doze períodos distintos. Após séculos de estudo e investigações minuciosas, foram estabelecendo os mapas de correlações que, ainda hoje, são utilizados na medicina chinesa. Tanto no diagnóstico, como para restabelecer o equilíbrio homeostático do corpo entender os ciclos torna-se vital.

As nossas células, contém pequenos relógios moleculares que temporizam o ciclo de 24 horas através de reações químicas. Estes relógios conseguem perceber quando os dias ficam mais longos ou curtos, desencadeando mudanças sazonais.

Durante mais de um século, a ciência ocidental foi bastante reservada sobre este tema. Simplesmente, porque não encontrava uma porta de entrada para mensurar de acordo com os protocolos da ciência exata. Em 2017, este cenário mudou com a identificação das proteínas associados à regulação dos ciclos. A revelação foi considerada tão promissora e revolucionária que atribuíram o prémio nobel da medicina, ao trio de cientistas, Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W. Young, pelas descobertas dos mecanismos moleculares que afetam os ciclos circadianos.

Circadiano deriva do latim, significando “cerca de um dia”. Este ciclo atua como um importante regulador, de um vasto conjunto de funções fisiológicas que incluem o sono, temperatura corporal, pressão sanguínea, sistema endócrino, metabolismo, imunidade, funções cardiovasculares e renais. Dois componentes são centrais no seu funcionamento: o núcleo supraquiasmático (NSQ) que reside no cérebro e os relógios periféricos que estão distribuídos por todo o sistema de órgãos e tecidos. As nossas células, contém pequenos relógios moleculares que temporizam o ciclo de 24 horas através de reações químicas. Estes relógios conseguem perceber quando os dias ficam mais longos ou curtos, desencadeando mudanças sazonais. Ambos os sistemas podem ser reiniciados através de fatores ambientais conhecidos como Zeitgebers (palavra alemã para “dadores de tempo”). O Zeitgeber com maior impacto é a luz que comunica com o NSQ. Um exemplo reconhecido é o jet-lag que sentimos, ao mudar de fuso horário durante uma viagem. No entanto, outros mecanismos atuam na regulação, sendo influenciados por outros Zeitgebers e fatores internos. Saber que até os cegos sofrem de jet-lag, obriga-nos a reponderar que existe algo mais, para além da luz, a atuar na regulação do fuso.

“Laranja de manhã é ouro, de tarde é prata e à noite é chumbo” refere o provérbio árabe original, antes da readaptação portuguesa numa rima do el matador.

Cai a noite e o colón desativa, voltando a ativar pelas oito da manhã. Entre a uma e as três da tarde, ninguém tem ideias brilhantes. À medida que o sangue e o Qi, fluem naturalmente para os intestinos, ganhamos um torpor e a criatividade diminui. Ao contrário do mito, isto ocorre quer o almoço tenha sido farto, ligeiro ou de jejum. Mas mudemos de assunto, que falar de vísceras não é para todo o estômago, que tem um poder digestivo superior, no período da manhã. “Laranja de manhã é ouro, de tarde é prata e à noite é chumbo” refere o provérbio árabe original, antes da readaptação portuguesa numa rima do el matador. Claro que podemos sempre comer laranja à noite. É uma ótima forma de dizermos à vesícula e ao fígado que não gostamos deles, dando-lhe um trabalho complexo pouco antes de entrarem ao serviço.

Pelas onze da noite entramos na hora da vesícula. Se temos muita luz é o desnorteio mental, com pouca luz surge a sonolência. Quando pela uma da manhã, nos arrastamos para a cama, surge a vingança do fígado. A produção de glóbulos brancos dispara, o yang sobe assim como a atividade mental que se estende até às três da manhã. Estivéssemos a dormir e entraríamos no sono profundo, a conhecida frequência REM. Mas como esticámos a corda vem agora a surpresa. Tentamos adormecer, mas andamos às voltas nos lençóis, enquanto a mente é inundada de pensamentos desconexos e tentar adormecer torna-se um campo de batalha. Diversos artistas, adoram trabalhar a esta hora para escrever ou criar. Para os que o fazem por sistema, o fígado vai levando pancada. A seu tempo as variações de humor, a exasperação e um temperamento que ferve em pouca água, vincam-se na personalidade do artista. Como diziam os nossos antigos, “pessoa de maus fígados”, aquele mais belicoso quando a bílis lhe começa a esverdear no sistema.

Com o pôr-do-sol os corpos começam a segregar a hormona da oxitocina, tornando-nos mais sensíveis ao toque. Pelas nove da noite, é uma ótima hora para carícias e namorar. Se for fã da dor, marque a depilação ou a tatuagem por esta hora.

Como regra geral, o sono mais reparador ocorre entre as dez da noite e as cinco da manhã. É o período mágico para uma desintoxicação profunda e fortalecer a imunidade natural. O sistema digestivo é particularmente forte pela manhã, perdendo poder ao longo do dia. Também os antigos deram o mote pelo provérbio “Pequeno-almoço de rei, almoço de príncipe e jantar como um mendigo”. Com o pôr-do-sol os corpos começam a segregar a hormona da oxitocina, tornando-nos mais sensíveis ao toque. Pelas nove da noite, é uma ótima hora para carícias e namorar. Se for fã da dor, marque a depilação ou a tatuagem por esta hora.

Com o raiar do sol, sobe a tensão arterial e lá vai o Silva tomar os remédios para ver se fica calminho. Já o Zé, vê-se de bandeira hasteada à medida que a testosterona vai subindo até meio da manhã. Tornando a coisa mais visual, com o início da noite há mais esfreganço e pela manhã a tendência é o martelanço.

Grafismos à parte, contemos agora uma história. Envolve cinco personagens e um monge, que se reúnem pelas quatro da madrugada, quando um passarinho canta em honra da sua amada. O João acorda com tosse, já a Maria com asma. No quarto ao lado temos novamente o Silva, que parece ressonar através de um megafone. Desperta a Ana, com uma enorme vontade de ir fazer um xixi pela calada. Também o Pedro abre os olhos no escuro do quarto, dando por si entre pensamentos que oscilam do depressivo ao insólito. Ao longe um lobo uiva. No andar de cima, o Takashi prepara-se para meditar. Os Doze Ramos Terrestes indicam que é a hora do pulmão, enquanto a bexiga entra no seu pico de vazio de Qi. Faria bem a Ana, em massajar o tendão de aquiles para apanhar o ponto 60 da Bexiga【昆侖, kūnlún】ou fazer um escalda-pés antes de dormir. O Pedro poderia estimular o ponto 7 do pulmão【列缺, lièquē】e o ponto 4 do Intestino Grosso【合谷, hégŭ】. O João poderia comer mais brócolos. Para a Maria menos gelados, iogurtes e outros lacticínios. O lobo deve continuar a uivar e o Takashi ligar-se a ele.

Os ciclos circadianos pautam o ritmo do nosso dia-a-dia. Quando desregulam sentimo-nos desfasados e quando os temos bem alinhados, um sentimento de harmonia inunda-nos.

Tal como um dançarino se liga à música para se expressar, alinhamos com os ciclos naturais para nos reencontrarmos. Ligar à Natureza inescapável, é a verdadeira forma de escapar.

A orquestra dos ciclos naturais tem vários instrumentos a contribuir para a sinfonia, sendo o circadiano uma das estrelas. Outros artistas em performance são o ciclo anual, sazonal, lunar, 24 Jieqi e o Qi9 (por hora, não vamos falar dos que atuam nos bastidores). Cada um tem a sua pauta e em conjunto definem a melodia da natureza. A Natureza não é algo que existe nas florestas ou em plantas enfiadas em vasos, está em tudo o que existe. A Natureza também não é verde, tem todos os tons e cores, sendo por vezes incolor.

Não é algo que exista lá fora, nem tão pouco algo a proteger. É algo mais simples, a Natureza toca e nós dançamos. Se o fizermos bem, sentimo-nos conectados. Se criamos demasiados truques e outros artifícios, há uma tendência para nos sentirmos desconectados, fora de ritmo. Quanto mais plataformas virtuais nos conectamos maior a tendência para desconectarmos do que importa. No entanto, se certos movimentos nos afastam outros aproximam-nos. Por exemplo, mergulhar entre as árvores para um shinrin-yoku (termo japonês para “banhos de floresta”), é sempre uma excelente forma de conectar e equilibrar ao ritmo natural.

Tal como um dançarino se liga à música para se expressar, alinhamos com os ciclos naturais para nos reencontrarmos. Ligar à Natureza inescapável, é a verdadeira forma de escapar.

Fotografia por Victorien Ameline

Retiro “A Sabedoria Natural”
20 a 22 de Março

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“Os ciclos que te rodeiam e influenciam”
5 de Março das 19h às 20h

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