Tenho vindo a afunilar os diversos meios de comunicação à distância. Removi a conta pessoal no facebook, bloqueei a possibilidade de chat pela página do Macrobiotices, o telemóvel toca quando serve de leitor de mp3. Todo este movimento é uma espécie de culminar de vários anos com filmes, alguns stresses e muitas experiências em que tentei conciliar a ditadura social com o que dita a minha vontade pessoal.

Nos últimos três meses tive também mais recolhido e dei por mim a refletir sobre muita coisa. Compreendi que atualmente desenvolvi uma espécie de intolerância a meios de comunicação à distância instantâneos.

A sobrexposição a comunicações de fraca qualidade deixaram-me intolerante ao “produto”.

Constatei que estes produtos de comunicação instantânea e ausente, deixavam-me mais agitado, ansioso, irritadiço e descentrado. O sentimento de “lost in translation” ocorria com mais frequência.

Percebi que o melhor meio para comunicar de forma instantânea é o cara-a-cara. No facebook perdia o rasto no meio de tanta mensagem e notificação. Aquela misturada de vida profissional, pessoal e palhaçada era difícil de gerir. O telemóvel quando não está desligado encontra-se em absoluto silêncio (é que nem vibra) e consulto-o entre três vezes por dia a uma vez a cada três dias. Consulto com a mesma regularidade que o email. A diferença é que pelo email, por enquanto, ainda não é feita cobrança, ninguém fica ansioso, amargo ou apoquentado porque não respondi na hora ou no próprio dia. Como não consegui de forma nenhuma comunicar esta minha característica, nem tão pouco adaptar-me a estar mais constantemente ligado, restou-me apenas uma opção : remover-me. Regressei a um modo gambuzino que é um modo que sempre conheci bem.

Sinais dos tempos acelerados, hoje em dia toma-se como desprimor quando o tempo de resposta não é instantâneo. Essa sensação fazia-me sentir refém de algo que não assinei e que recuso-me a assinar. Nos últimos três anos com a vinda dos smarthphones comunicações não pagas, multiplicaram os pingue-pongues.

Onde antes bastaria uma mensagem ou um telefonema rápido para combinar algo, agora são dez mensagens e telefonemas a cada cinco minutos para combinar um simples café.

A comunicação aumentou e torna-se mais superficial, incompleta e ruidosa. Faz-me lembrar aqueles anúncios da televisão por cabo “Agora com mais 200 canais de merda para poder escolher num zapping que demora ainda mais tempo a dar a volta”. Constato que as combinações são progressivamente mais indecisas perante tanta possibilidade, adiando-se compromissos até mesmo à ultima, mantendo-se assim as devidas possibilidades em aberto. Lentamente as decisões são substituídas por intenções e os compromissos por ligações e remarcações.
Notei que a facilidade do instantâneo crescente, roubava-me cada vez mais o momento presente. Perante isto, nada melhor que borrifar para religar ao que realmente importa, o aqui e o agora.

O instante rouba-nos o momento.

Continuo acessível, em modo mais “old school”. Digam-me um dia, local e hora, escrevo na agenda e lá estarei. Fica escrito a caneta e bem marcado. Sem necessidade de confirmar, reconfirmar e reassegurar.

Estranhamente esta simplicidade dos velhos tempos deixa insegura muita malta.

Pergunto-me se daqui por uns anos será comum sairmos à rua com receio, se não consultarmos antes a previsão do tempo.

vida-comeca

2017-11-29T23:37:40+00:00

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