A Origem das Práticas Daoistas

A origem do sistema de Práticas Daoistas

Durante quatro séculos,  a “Academia de Platão” da antiga Grécia, foi palco de desenvolvimento de grande parte da nossa cultura e pensamento. A Oriente temos a região montanhosa de Wudang, onde por milhares de anos, gerações sucessivos de mestres e discípulos, tem vindo a investigar e validar a natureza da realidade. Xiudao (修道) ou Práticas Daoistas, compreende todo o sistema de desenvolvimento humano de Wudang.

Wudang é a região berço do Daoismo (Taoísmo)

Em toda a China, “Wudang” é sinónimo de daoista. Por exemplo, dizer “Qigong de Wudang” confere grande prestígio, pois significa que foi desenvolvido pelos monges daoistas de Wudang e como tal possui a qualidade que lhes é reconhecida. De forma análoga, dizer “Qigong de Shaolin” indica que foi desenvolvido pelos monges shaolin (budismo chinês) e que terá as características inerentes ao estilo Shaolin.

As Práticas Daoistas integram um sistema ancestral, desenvolvido ao longo de milénios por sucessivos mestres, para cultivar o ser humano. A abrangência destas práticas desenvolve-nos a vários níveis, reconciliando mente, coração, corpo e espírito, em um. Seguindo métodos alinhados à Natureza, regressamos à origem, orientando-nos ao Caminho (Dao). A origem destes ensinamentos remonta às montanhas de Wudang na China e segue o estilo Puro Yang. Uma respeitada e antiga linhagem oriunda do “Portão do Dragão da Escola da Realidade Completa do Daoismo” uma vertente que integrou de forma acessível, elementos do Budismo e Confucionismo pela entendimento natural do Daoismo.

Foi também na cordilheira montanhosa de Wudang que foram desenvolvidos os conceitos do Qi, Yin Yang, as Cinco Transformações, Baguá, Yi Jing, o sistema de Trigramas e Hexagramas, os Três Tesouros, Feng Shui, Acupuntura, Fitoterapia, etc. num terreno fértil ao estudo do homem, da natureza e dos aspetos mais profundos dos fenómenos.

“O mestre aponta a porta porém só o discípulo a poderá passar.”

A Escola de Atenas na antiga Grécia desenvolveu inúmeros conceitos que enriqueceram o corpo de saber da cultura ocidental. De forma análoga a região de Wudang, com as suas inúmeras escolas, templos e mestres, desenvolveu inúmeros conceitos para desenvolver o saber nas mais variadas áreas e fenómenos. Continuando desde a antiguidade a praticar, desenvolver e validar os diversos conhecimentos acumulados.

Tal como na antiga Grécia, cada mestre opera como um tutor nas diferentes áreas, ensinando uns poucos discípulos as ricas e profundas teorias e práticas que cada aluno deverá estudar, desenvolver e constatar por si. Devido a diferentes factores geopolíticos e históricos, o corpo de conhecimento aprofundou o estudo do corpo físico e diferentes práticas para integrar as diferentes dimensões que compreendem um ser humano.

A mente, a razão, o conhecimento abstrato, a filosofia, os conceitos teóricos e tudo aquilo que poderíamos considerar como os aspetos mais “yin” do desenvolvimento foram e são largamente aprofundados. Paralelamente e de forma integrada, o corpo, o sentir, o saber da experiência direta, os exemplos concretos, a prática e tudo aquilo que podemos considerar como os aspetos mais “yang” do desenvolvimento foram e são largamente aprofundados. Assim tanto o mundo das formas e sem formas, os fenómenos e as interações entre estes revelam a função a cada momento da miríade de forma manifestas. Mente, corpo e coração são considerados complementares e inseparáveis de um todo indivisível e estudados de forma integrada.

A matéria e a vibração, o visível e o invisível, o abstrato e o concreto, o teórico e o prático, o objetivo e o subjetivo, o masculino e o feminino são conciliados através do estudo e das práticas. Por um lado é desenvolvido o pensamento por oposição, o discernimento, o raciocínio, a separação, o conhecimento, o pai do pensamento dualista e a compreensão das inúmeras variações do yin e do yang. Por outro lado é cultivada a reconciliação, a integração, a experiência direta, a percepção que é a mãe do sentir intuitivo. Assim tanto o mundo mais visceral, duro e comum (ordinário) é desenvolvido a par com o mundo mais subtil, suave e incomum (o extra), rumo a algo extraordinário que devido ao seu aspeto transcendente apenas poderá ser plena e profundamente entendido por experiência direta.

Na China o sistema de Práticas Daoistas é conhecido pelo termo Xiuxen (修身) ou Xiudao (修道) literalmente significando “Restaurar o Caminho” albergando o significado de realizar de forma natural, cultivar a verdade, reparar o corpo, reparar o Dao, caminhar para o Dao, reconciliar e integrar num caminho alinhado ao nosso pleno potencial.

Estilo Puro Yang

O estilo Puro Yang (纯阳, chún yáng), é representado pelo Templo dos 5 Imortais, localizado no Pico do Cavalo Branco das montanhas de Wudang (武当白马山五仙庙, Wǔdāng báimǎ shān wǔ xiān miào).

As habilidades do estilo Puro Yang foram fundadas por Lu Dong Bing, reconhecido como um dos Oito Imortais (uma lenda bem reconhecida na China) no século VII, durante a Dinastia Tang. O seu ensinamento foi passado e refinado, ao longo de vários séculos, por sucessivas gerações de mestres e discípulos. Esta cadeia de saber quase foi quebrada, durante a revolução cultural chinesa, um período conturbado em que templos foram destruídos e monges perseguidos. O saber preservou-se pela 22ª geração através do mestre Liu Li Hang, que encontrou em Du Song Feng (Li Shifu) um discípulo capaz, passando a este todos os saberes da linhagem, nessa 23ª geração. Compreendendo as mudanças dos nossos tempos, Li Shifu abriu as portas do templo em 2008, disposto a ensinar discípulos que detenham a capacidade e a motivação de assumir o compromisso de aprender, saber e praticar com rectidão. Foi assim que em 2009 tornei-me discípulo deste, recebendo o nome Cheng Fa (诚法, Chéng Fǎ). Ingressando na 24ª geração de discípulos do estilo Puro Yang.