O mais radical que cada um de nós pode realizar nestes tempos, é ser inteiramente presente ao que acontece no mundo.”

~Joanna Macy

Queres ser ou ter ?
Queres viver em presentes ou em hipóteses ?
Queres entregar-te a momentos ou a esmifrar-te por instantes ?
Queres qualidade mesmo que seja pouco ou quantidade mesmo que seja rasco ?

Estas e outras questões acompanham-me ao longo dos anos e são revistas regularmente. São como o astrolábio e compasso para navegar em bom rumo. Continuamente vou realizando ações para realinhar-me a propósitos simples : continuar a crescer, continuar a ser feliz, continuar a bem, continuar a melhorar, continuar…

No dia-a-dia, eliminei gradualmente, todas as notificações. Hoje vivo o mundo ainda mais intensamente no presente, do que vivia. Recusei o instantâneo para viver cada momento totalmente imerso. E protejo inclusive as atividades mais mundanas de interrupções : caminhar, comer, respirar, descansar, lavar, olhar, escutar… Mesmo os atos mais ordinários são vividos momento-a-momento e naturalmente adquirem aquele qualidade extra que os torna extraordinários. Esses extras surgem naturalmente, pelo simples compromisso de me entregar a estes por inteiro.

Para mergulhar num grande amor desapego-me do que o contenha. Para mergulhar em profundidade abdico de tudo o que me faça habitar no superficial, no banal e no instantâneo. Para ter qualidade invisto no brio, abdicando da pressa e da quantidade.

Assim pouco-a-pouco e por pequenos nadas, sigo mais-e-mais por um caminho marginal, onde me reúno a uns poucos que também peregrinam. Cada um destes poucos que encontro, é tão inestimável como uma pérola única reunida numa ostra.

Geres » Caminhada (132)

O telemóvel metade do tempo fica desligado, quando ligado entra em modo de avião ou se com rede, não tem som nem vibra. É algo que consulto quando me ocorre e num tempo próprio que não interrompa o presente. O facebook passou de dois mil contactos para pouco mais que uma dúzia e ainda assim vou removendo alguns que ignoram (ou não respeitam) a comunicação pretendida através desta conta, que torna-se necessária enquanto quiser continuar publicar em páginas que administro.

Duas coisas aconteceram em consequência destas e outras ações semelhantes :
* Os distantes reclamam o meu tempo de resposta, ausência e anacronismo ;
* Os presentes elogiam a minha presença, a inexplicável calma que sentem e o sincronismo.

Pode parecer um paradoxo, porém olhando bem, percebemos que o antagonismo é apenas o resultado natural de trazer luz aos obstáculos (na escuridão nenhuma sombra é criada).

Para quem vive à superfície, o mergulhar é uma vertigem desconhecida e assustadora. Alguns dirão que é aborrecido e silencioso. No entanto, para aqueles que verdadeiramente mergulham, queremos apenas regressar mais e mais vezes a este mundo de corais, tesouros, “golfinhos e baleias”, encontros de terceiro grau, um desconhecido repleto de surpresas e mistérios. Existem igualmente diversos perigos porém viver é um perigo. E tomadas as devidas prudências e providências, todo o barco deverá largar o porto seguro, pois não foi para estar no porto que foram construídos os barcos. Aprender a navegar não é algo fácil, porém é tão simples como levantar a âncora. Também não é algo complexo ou inacessível, mesmo o analfabeto, maneta do gancho da pala no olho, poderá tornar-se um capitão exímio na arte de bem navegar, comandar e comandar-se.

No porto seguro da terra, poderemos aprender muito que será útil no mar e é também um bom destino temporário para reabastecer e reparar. Porém, as mais substanciais lições aprendemos na água e é na água que cumprimos o nosso maior destino. O de navegar, o de ser.

Quanto tempo deveríamos estar na água ou em terra ? Perguntemos ao corpo que nos faculta a experiência da vida : “Em cem, setenta sou água e em trinta sou porto seguro.” diz ele.

Costa Alentejana (6)

2017-11-29T23:37:40+00:00

Um comentário

  1. vanimag 14 Julho, 2016 em 7:57 - Responder

    Amei… Texto e fotos ! 🙂 e a sua leitura foi um incrível momento de aqui e agora !

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