Lady Di

Querida Diana entendo-te e nesse entendimento considera-te acompanhada. O caminho menos percorrido, é o caminho menos percorrido. É ai que habita o mistério, o desafio, a magia e por onde passam todos os anormais. Ao caminho mais percorrido dá-se o nome de “Norma” e aos que o percorrem, normais. Se for normal alguém mergulhar de cabeça num poço vendo outro, essa será a norma e os que o seguem, os normais. Assim é na linguagem matemática, assim é na linguagem dos vocábulos. Sim, anormal serás e como uma saudável anormal te reconhecerás. É um caminho solitário, porém não estás sozinha. Há sempre uma dúzia de anormais que te acompanharão no meio dos milhares de normais. Sozinhos estamos quando olhando à volta não encontramos ninguém, que bem sabe poder cagar assim, tomar um duche, desfrutar a privacidade e a intimidade com aquele punhado que nos respeita e entende. Por vezes no punho encontramos a nossa mão, outras vezes dentro do punho encontramos outras mãos também.

bichinhosSolitários é como nos sentimos quando sozinhos ou acompanhados nos sentimos aparte. A nossa consciência sente que não é entendida por outra. E como entender é amar, essa falta de entendimento sente-se como um frio, uma rejeição, uma prisão, uma falta de amor, de ligação. É terrível e tanto maior quanto mais rodeados estivermos por seres que não nos entendem. Cada um destes engrossa a parede e o peso da ostra em que nos sentimos enfiados. É por isso que os sábios buscam muitas vezes o conforto e o aconchego da solitude, o entendimento com os bichos e aquela dúzia que procurarão por uma vida e que a vida dedicarão ao encontrá-los.

Na solitude descobrimos ou redescobrimos que estamos sempre acompanhados da natureza do ser e que nos é própria. Este é o sentido profundo da expressão em “nós próprios”. A propriedade que se encontra em todos e em cada um nós. Há sempre um “nós” e é-nos próprio. A todo o nosso redor em que estamos incluídos, há uma vida pulsante e uma consciência que repousa transcendendo o pulsar ou mesmo a vida.

Custa perceber-mo-nos isolados daqueles que amamos. Por vezes, essa separação ocorre ao vermos os seres amados a mergulhar no poço, outras porque subimos uma colina e em outras, porque surge um paio. Talvez esse paio possa também ser uma sorte e outros partem para que outros possam entrar.

colheita de chaCerta vez, o meu mestre salientou, que todos os grandes iluminados sempre tiveram poucos discípulos. Poderão ter milhares ou milhões de seguidores, no entanto, discípulos são sempre muito poucos. Jesus teve doze apóstolos. Buda, Lao Tzu, Sócrates, Omraam, Lu Dong Bing e tantos outros sempre tiveram apenas um punhado. E em verdade todas as anomalias precisam apenas de um punhado de outros anormais para fazer os fantásticos quatro, os cinco maravilhosos, os doze cavaleiros do Zodíaco ou os guardiões da galáxia. Reforço o que te disseram, o caminho do herói é um caminho solitário, porém digo-te também, que poderás acompanhar-te de um punhado de anormais à tua semelhança. E que ainda que solitário poderás sempre escolher em que momentos preferes estar sozinha ou com outros. Quanto à companhia, prefere a daqueles que te acompanham na tua onda e deixa os outros apanharem a sua onda também. Seja esta uma onda integral ou uma onda de paio, deixa que cada um siga o seu caminho e regozija-te nos que vão cruzando apenas ou acompanhando-te no teu.

moment-1Brotamos como uma flor de um universo, de uma mãe fecundada num pai. A partir da sua massa emergimos e ganhamos forma, E ganhando uma forma separamo-nos simbolicamente. Aos olhos do mundo nascemos e viemos sozinhos. O coração pulsa num ritmo, as ondas da respiração num outro e expressamos uma melodia de vida. Por fim tudo sossega, as ondas desfazem-se, o tambor sossega, a forma dissolve-se e retornamos ao grande oceano, a flor torna-se semente ou composto, regressando à grande mãe (Terra, material) e ao grande pai (Céu, imaterial). A terra, a massa de onde animadamente brotámos. Aos olhos do mundo vivente, morremos e fomos sozinhos. Na percepção do mundo vivente, chegamos sozinhos e partimos sozinhos. Na visão sem dualidade, tudo são balanços da forma e não forma, melodias e pausas entre melodias. Um permanente movimento de vai e vem de ondas que emergem, crescem e regressam. Uma eterna canção de notas vivas e compassos mortos, numa infinita e suprema melodia.

Viemos ao mundo não para mudá-lo e antes para ser mundo, enquanto nos percorremos através deste. Nesse processo em que nos limitamos a ser, naturalmente crescemos. E porque somos mundo, o mundo desenvolve-se connosco e através de nós… em cada e por todo o “nós”.

Vimos ao mundo sozinhos e desloca-mo-nos por um autocarro de destino incerto e hora imprevista de chegada. Outros seres entram no autocarro e saem na paragem seguinte, outros chegam à porta e não entram. Alguns acompanham-nos por um longo percurso da viagem, outros saem e voltam a entrar mais à frente, com a mesma roupa, por vezes trocando de casaco, outras vezes de forma. Uns tocam música, outros pedem bocados de materiais a que dão significado ou maior valor. Alguns oferecem comida ou um ombro que nos apoia. Uns falam ou seguram-nos a mão nos balanços. Outros acompanham-nos até à estação de destino incerto e no momento de sair pela porta, cada um tem a sua vez.NOTA : este artigo surge em sequência a esta bela e sincera partilha.

2017-08-26T21:43:12+00:00

Um comentário

  1. maldizente 30 Dezembro, 2014 em 12:21- Responder

    Por vezes é preciso algo tão simples como um paio, para perceber que as diferenças que nos separam não se encontram no estômago, mas antes bem mais acima. Como dizes bem, pode ser que um dia as pessoas se reencontrem com outras roupagens… ou não. Gosto muito deste tributo aos anormais, os que fogem da norma sem medo do julgamento, sem receio da mudança. Grato pelas boas palavras

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