Celebração

No fim do ano passado, num espaço de duas semanas fui convidado para orientar dois casamentos, como mestre de cerimónias. Dois casais amigos, separadamente, lembraram-se na mesma altura de me convidar. É muita honra e ao mesmo tempo, responsabilidade em tom de desafio. Sempre gostei de desafios e tenho vindo a compreender que crescemos ao adquirir habilidade, capacidade de responder, noutras palavras, responsabilidade. Assim desde que me lembro que faço por avançar diretamente em direção ao desconhecido. Se não sabemos, devemos então saborear. E assim através do gosto de saber, adquirimos a experiência de saber. E é com gosto que hoje ao ensinar, repito-o em diferentes temas “o que aqui ensino, experimentei-o. É mais fruto do meu saber, que da minha ideia. Haverão mais saberes e perspectivas, a experiência que tenho tido é esta. Aceito-as sem negar a minha.” Poderia agora acrescentar, “como em cima assim é em baixo e tanto no ceú e na terra seja feita a vontade de Si”.

No primeiro casamento a cerimónia desenvolveu-se através das Cinco Transformações. No segundo e último casamento (antes que surjam ideias) desenvolvi a cerimónia em torno das Nove Direções.

Sem saber o que dirigir numa cerimónia de casamento, reflito nos desafios que enfrentamos na vida, como se refletem esses desafios enquanto casal, que se une a caminhar junto. Duas heras que se entrelaçam dizendo “cresço contigo, companheir@”. Na minha mente, relembro a tradição católica em que o casal volta-se de costas para os convidados e de frente para o celebrante. Relembro-me que nas cerimónias celtas, hindus e outras, ocorre o inverso e o casal olha de frente para os convidados. Relembro-me que para os orientais, a imunidade depende da nossa capacidade de estar bem nas seis direções (frente, trás, direita, esquerda, cima e baixo). Diz-se que alguém fortalece-se, se conseguir caminhar de costas. Que se manterá jovem se conseguir subir e descer de uma árvore, assim como cair e rebolar no chão. Relembro-me de como na nossa cultura colocamos o passado para as costas, acabando por carregá-lo continuamente, encarando o futuro de frente e nunca o vendo até levar com este. E relembro-me de como para os orientais o futuro é uma força que vem pelas costas, que como tal não se vê e tem a capacidade de nos levar como uma corrente ao longo do caminho do destino, considerando a nossa capacidade de o surfar a cada presente. E reflectindo sobre isto, lembro as oito direções do baguá e da nona direção tão poucas vezes entendida (até temida), que leva ao dragão que nos devora ou nos faz voar, à besta ou ao bestial, das infindáveis areias movediças ao céu sem fim. Os nove palácios apontados pelo daoísmo no trilho de caminhar pela dualidade em direção ao Dao (o caminho).

No dia do casamento, um calor abrasador daqueles bem alentejanos. Do meu lugar, fui celebrando a cerimónia a levando com um sol de 40ºC na moleirinha. Tentando orientar enquanto o meu cérebro ia cozendo lentamente. Considerando tudo, parece-me que correu de forma excelente.

Início da cerimónia de celebração do Casamento

Como casal diversos diversos desafios se vos apresentam. Sem perderem a noção do eu, terão de aprender a conjugar a noção do nós. Integrarem-se numa dança agora em par. Se o amor é a música, a relação será a dança e os envolvidos, os dançarinos. Compreendam que à música pouco lhe importa a dança. Porém aos dançarinos terão o desafio, de conjugar a dança na música. Sendo a música, o amor, sempre vos guiará na vossa relação, mesmo quando perderem o passo. O amor toca continuamente e cabe às danças conciliarem-se a este.
O fim do amor é amor em si mesmo.

O Amor que não tem um fim, que é um Amor que não tem um começo, é terno por natureza.
Se quiséssemos dar-lhe um fim, esse seria o seu princípio. E o princípio que o move é unicamente…
O Amor que não tem um fim, que é um Amor que não tem um começo, é terno por natureza.

O amor não tem condições, porém como seres formados somos condicionados e se para o amor o amor lhe basta. Numa relação entre formas, é preciso aprender a cuidar do amor que as une. A relação tem condições e como tal devem aprender a alinharem-se, um no outro, um com o outro e um com nós. O casamento é o revelar ao mundo do amor e vontade do casal que anuncia publicamente o seu amor, que celebra connosco o nós que se une. Como tal, numa celebração deste cariz, existem sempre testemunhas que simbolicamente criam a ligação do casal nas restantes seis direções que envolvem as três.

Porque enquanto casal terão de conciliar várias direções convido-os a experimentarem-nas e compreenderem-nas. Conciliando-as ao longo do vosso caminho a dois.

(os noivos vão direccionando-se nas direções, os convidados são convidados a participar)

FRENTE (passado) » (Os noivos voltam-se de frente para os convidados) » Pela frente vemos o nosso passado. Tudo o que nos faz chegar ao momento presente e nos apoia. Encaram de frente as vossas raízes, aquilo que providencia o vosso presente actual. Reconhecem, agradecem e desta forma conscientes da vossa raíz, de onde vem, movem-se ao encontro para onde vão, através do caminho que recebe o nome de destino. Recordem-se sempre que o destino é o nome de um caminho e não de um local, não tem morada fixa e move-se continuamente. Sempre que em vós estejam e naturalmente alinharam o vosso propósito.

COSTAS (futuro) » (os noivos voltam-se de costas para os convidados)
Do ponto de vista oriental, o futuro vem pelas costas e como um rio tem o condão de nos levar.
Se sentirmos correctamente esta corrente, estas ondas que nos chegam, poderemos pressentir a sua chegada e entrar em fluxo.
Movidos por esta força que nos empurra e move.
Estando pelas costas apenas o pressentimos, quando está já muito perto.
E assim pede-se presença e percepção, para que assim possamos sentir a corrente e mover-nos por esta.
Navegar pela vida, surfando pelo presente.

(o público é convidado a juntar-se a olhar nas direções)

DIREITA (masculino) » (os noivos olham para a direita) »
À direita temos uma força dominante.
Esta orienta a direcção.
Serve a direita para nos guiar.
Pela direita colhemos e comemos o fruto.
É activa e dadora.
Corta a direito.
Diz-se que é a força do pai, do criador.
Aqui mora o autor e como tal a autoridade.
Aqui mora o tempo.
Se nos alinhamos aqui, alinhamos com o tempo.
Escutamos, seguimos e aprendemos.
Desalinhados à direita, brigamos com o autor e queremos “ensinar o pai a fazer filhos”.

ESQUERDA (feminino) » (os noivos olham para a esquerda) »
À esquerda temos uma força cooperante.
Esta indica os limites, da terra.
Serve a esquerda para nos apoiar.
Pela esquerda contemos e bebemos a água.
A esquerda é participativa e receptiva.
A esquerda reúne a bom termo.
Aqui mora o bem-querer e a o acolher.
Aqui mora o espaço.
Alinhados aqui, criamos laços e raízes.
Desalinhados, dispersamos por todos os lugares.

CIMA (a intenção) » (os noivos olham para cima) »
Do alto recebemos as indicações que nos guiam.
Tudo o que é macro (grande) vem de cima.
Vai chover ou fazer sol ?
É dia ou noite ?
Estou alinhado ao todo da qual faço parte ?
E recebemos assim os sinais da estrela dos reis, da chuva que avizinha, do semáforo que ficou verde.
Ao alto subimos para recolher o fruto.
Ganhar perspectiva pela vista.
Subimos ao topo para beber da fonte que brota.

BAIXO (a ação) » (os noivos olham para baixo) »
Pelo baixo seguimos o caminho que nos serve.
Tudo o que é micro (os detalhes) vem de baixo, é o mundo das pequenas coisas que fazem a diferença.
Poderei aqui colocar o pé ?
De que forma devo caminhar ?
Que é isto que aqui está ?
Em baixo é a terra dos pequenos sinais, das pedras preciosas que se materializam.
Onde colhemos os meteoritos que surgem do alto.
Ou o alimento que brota em direcção ao sol.
Abaixo descemos para enraizar, plantar sementes, cultivar o sustento ou minerar em busca de água e reunir as pedras preciosas.

(Os noivos direccionam-se frente a frente, de mãos dadas, nas últimas três direções)

OLHOS FECHADOS (o nós caiem em si) » (voltados de frente os noivos fecham os olhos) » Ganham Presença. Aqui entramos no mundo do sonho, tudo o que é suave e interno ganha dimensão. A respiração torna-se perceptível, o coração torna-se audível, a emoção torna-se evidente e tal como um mergulho no oceano, ao fechar os olhos acedemos ao que é tão presente que se torna invisível. Sentimos as nossas próprias águas e correntes, a nossa própria força de vida. Compreendemos a nossa dimensão interior sondando o que a limita, o que lhe dá forma e molda.

OLHOS ENTREABERTOS (o si que avança para o nós) » (voltados de frente os noivos entreabrem os olhos) » Ganham Percepção. É a relação do eu e o outro eu, amor do mesmo amor, corpo do mesmo corpo. Entreabrimos os olhos quando estamos em gozo interior através de algo exterior. Os amantes que se gozam, a sobremesa que nos delicia, um sorriso sincero com o nascer do sol, o mestre que medita profundamente. Ao entreabrir os olhos, despertamos do sonho interno e percebemos que o sonho e o ser estende-se para lá do corpo de si. Atravessamos e unimos fronteiras. Despertamos para um sonho mais vasto e também a realidades mais vastas. O mundo cresce. A forma transforma-se. E mantendo a ligação às nossas raízes, despertamos e crescemos por estas.

OLHOS BEM ABERTOS (ação pura) » (voltados de frente os noivos abrem bem os olhos) » Percepção e Presença, integradas em todas as direções. Na nona direção, a intenção cai por completo e torna-se acção ilimitada, acção pura. É a força criadora (ação / preservação / renovação), o ser primordial, o instinto. Há um despertar completo. Instinto deriva no latim de INSTINCTUS, “instigar, incitar, impelir, dar impulso”. Assim existe em nós uma tremenda força primordial, que dependendo da ligação que com esta criamos contém em si a besta ou o bestial. Aqui reside o nosso pleno potencial de ser, o dragão que é guardião do tesouro e aquele que nos poderá levar a voar. Encontramos aqui o olhar do tigre, o poder de shiva, a ação pura de um olhar despertado. Para tal, pede-nos que atentemos às restantes oito direcções com igual respeito, percepção e presença. E desta forma, conciliando, a prisão que nos separa transforma-se na união que nos reúne, à essência sem nome. De onde brota o perfume a que chamamos, Amor. Que nos reúne à força que alimentamos e que nos impele.

Os noivos lêem os votos um ao outro.

(tendo estes completados os votos cito)

Por mil beijos que haveis dados e outros tantos que darão, dois beijos emergem no amor com especial significado. O primeiro pela surpresa e encantamento. O segundo pelo prometido realizado”

Celebrem então o beijo especial do prometido realizado e continuem a ser felizes, em cada presente.

2017-05-10T11:33:45+00:00

Comente com gosto

/* Omit closing PHP tag to avoid "Headers already sent" issues. */