Carrossel

Outono, Inverno, Primavera, Verão, Outono…

O ser humano é um verbo contínuo do verbo Ser. Os hábitos e a intensidade com que se coloca, orientam a sua transformação, em conjunto com a resposta que encontra face aos eventos.

São os hábitos que fazem o monge. E é fácil confundir a veste, sem perceber que esta é o símbolo da força do hábito, na criação da forma.

A prática repetida confere-nos habilidade e é através desta que verdadeiramente nos transformamos. Os planos ou resoluções de fim de ano, funcionam apenas como mapas, são acessórios. O hábito é a essência que efectivamente nos desloca a mover, a mudar ou manter.

Se a intenção fosse um mapa, a acção seria o carro e a consciência o condutor.

00-getready1Entre os balanços a que sou sujeito, a que me sujeito ou que simplesmente me ponho a jeito, num destes sou transportado. Percorro, em retrospectiva, as cinco estações que atravessei ao longo destes dezasseis meses. Cerca de quinhentos dias, em que fui vivendo hábitos e eventos, da qual este texto se torna fruto.

Desvanece-se como memória longínqua a passagem pelo trabalho no Chapitô, o projecto de crowdfunding e aqueles três dias em que preparo uma mala, para os seis meses seguintes.

É Setembro de 2013 e sei que rumo a um futuro incerto, confiante no presente que em mim encontro. Rumo à China, regressando ao templo onde vivi quatro anos antes. Passo na Coreia do Sul e o Dezembro na Tailândia. Entro assim em 2014, entre lanternas voadoras que animadas de fogo, levam desejos aos céus.

DSC02767Travado e perdido na fronteira do Laos, realinho-me para percorrer a Índia de norte a sul. Entre encontros insólitos e caricatas histórias, aterro em Portugal vivendo os três meses seguintes a retribuir recompensas, reencontros e novas rotas.

Ao longo de um carrossel de dezasseis meses de comprimento, fui-me reajustando com os ventos e marés, o melhor que soube.
Dormindo debaixo de noventa tectos diferentes ao longo de nove países em quatro continentes.
Por mais de cinquenta vezes fiz viagens de entre seis a vinte horas seguidas, de autocarro, comboio, avião, carro ou barco.
Vinte e dois voos que apanhei, vomitando na avioneta que sobrevoa as linhas de Nazca.
Pelo meio deixei a casa onde cresci e movi todas as coisas que tinha por quatro vezes. Intercalando com as cinco viagens de trabalho e os setenta viajantes que guiei no estrangeiro.
DSC02864Quatro meses foi o tempo máximo que permaneci numa mesma casa.
Iniciei trinta novos projectos. Sendo dez colaborativos, doze pessoais e oito que tendo iniciado, desisti ou congelei, sem os concluir. Recusando dezasseis propostas.

Neste carroussel de quinhentas voltas da Terra sobre si mesma, por setenta vezes teria sido feliz se encontrasse um amigo quinze minutos apenas que fosse. Em vez das inúmeras oportunidades desperdiçadas e das inúmeras combinações para nada, na eterna ânsia de controlarem o “para valer a pena”.

Vinte noites em que a solução para dormir foi colocar tampões nos ouvidos e outras dez em que valeu a venda nos olhos.
Oitenta noites em que o casaco ou cachecol foi a almofada improvisada.
Trinta noites que tive de dormir vestido.
Vinte noites em que o chão revelou-se mais confortável que a cama disponível.
Cento e quarenta dias consecutivos a assistir ao nascer do sol e mais dez ocasionais. Já o pôr-do-sol andou pelos noventa.

Festa Marrocos (36)Duzentas pessoas que experimentaram pelo menos uma aula de práticas daoistas.
Quarenta pessoas que guiei a meditar pelo menos uma aula.

Nos setenta dias em que me senti mais em baixo, cansado ou debilitado em nenhum tive de tomar um medicamento da farmácia ou ficar de cama.
Cinquenta foram os momentos que socorri-me de um remédio caseiro ou prática para restabelecer-me.
Vinte dias em que me senti intragável, do tipo de “saiam-me da frente e não comuniquem comigo”
Duzentas vezes que me ri tanto que me doeram os maxilares, tendo cinquenta sido risos incontroláveis e vinte incontroláveis e inconvenientes.

20131229_165611_2Cinquentas dias que não treinei nada, nenhuma das práticas daoistas.
Sessenta vezes que treinei em condições desafiantes… um corredor de avião, um comboio, barco ou autocarro em movimento, um aeroporto, uma estação, uma casa de banho minúscula, um corredor apertado. No meio de extremo barulho ou confusão, com um pé coxo ou na fadiga de quatro mil metros de altitude, no frio, neve, chuva, calor…
A praticar os exercícios, conto cerca de novecentas horas, em que quinhentas foram na China ao longo de três meses e as quatrocentas seguintes ao longo de treze meses por diferentes locais.
Setenta dias que meditei pelo menos uma hora

terapia gengibreCem terapias de gengibre, dadas em sete locais diferentes.
Cento e cinquenta trabalhos gráficos criados, três sites e nove vídeos.
Cem textos que escrevi e dez poemas que versei.
Quinze “noites” de sono que adormeci já à luz do dia seguinte.
Três amigos que hospedei.

O carrossel rodou intensamente e sabendo-o fui colocando mais chapas e mais chapas, mais e mais impulso. “Eu consigo, sou capaz de lidar” e fui-me desafiando na adversidade, para treinar-me e aprender a encontrar continuamente o meu centro, a reequilibrar-me na corda bamba. Agora chega ! É tempo de pousar, enraizar e a partir daí desenvolver. Contemplar por 108 dias seguidos, o nascer do sol no mesmo lugar.

carroussel

2017-04-23T10:09:04+00:00

Comente com gosto

/* Omit closing PHP tag to avoid "Headers already sent" issues. */