Bio é Vida

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O Centro de Serviços de Investigação do Parlamento Europeu (CSIPE) publicou um dos estudos mais profundos sobre os efeitos da alimentação e da agricultura biológica na saúde humana. Publicado em inglês, a 20 de Dezembro de 2016, na plataforma oficial do Parlamento Europeu com o título “Os efeitos da alimentação e da agricultura biológica na saúde humana” (“Human health implications of organic food and organic agriculture”, título original). Existem poucos estudos de fontes fidedignas sobre esta matéria, pelo que foi com entusiasmo e curiosidade que nos debruçamos sobre este. Ao longo de duas semanas fomos realizando um resumo e tradução portuguesa do mesmo, como serviço ao público. Poderão encontrar a versão sintetizada portuguesa aqui e a versão original inglesa aqui.

Biológico na gravidez e nos primeiros anos

A juntar a outros estudos realizados, a nova investigação do CSIPP reforça a importância de comer biológico, mais legumes e frutas, especialmente na gravidez e nos primeiros anos de vida das crianças. Minimizando assim os efeitos adversos da toxicidade no sistema nervoso, especialmente vulnerável nos primeiros estágios de vida.

Os pesticidas passam por uma avaliação abrangente antes de serem disponibilizados no mercado, porém permanecem falhas importantes nestas avaliações. De grande preocupação, é o facto destas avaliações de risco desprezarem as evidências de estudos epistemológicos que revelam os efeitos negativos da exposição no desenvolvimento cognitivo das crianças, mesmo quando os níveis de pesticidas de organofosfatos são baixos. Apesar dos elevados custos pela perda de QI na sociedade. Enquanto o consumo de vegetais e frutas não deverá reduzir, os estudos existentes reforçam a ideia de reduzir na alimentação a exposição a resíduos de pesticidas, especialmente nas mulheres grávidas e crianças.”

Dietas convencionais na Europa estão aquém do desejável

A dieta convencional atualmente praticada pela europa tem um consumo exagerado de carne e um baixo consumo de alimentos essenciais (cereais integrais, vegetais e frutas).

A atual média europeia de padrões alimentares é caracterizada por um elevado consumo de carne e um baixo consumo de cereais integrais, vegetais e frutas comparativamente a dietas saudáveis e ambientalmente sustentáveis. Os padrões dos consumidores de alimentos biológicos tende a ser mais saudável comparativamente à população geral.”

Métodos convencionais prejudicam a sociedade

Os métodos convencionais têm vindo a causar danos sérios na sociedade ao nível da saúde e outros custos. Prevê-se imposto e taxas para métodos convencionais e subsídios para métodos alternativos e sustentáveis.

A exposição ao Cádmio, resíduos de pesticidas e bactérias resistentes a antibióticos resultam no seu todo, como custos para a sociedade que tipicamente não são imputados no preço dos fertilizantes, antibióticos e produtos de proteção das plantas. Embora seja difícil de estimar com precisão, esses custos poderão ser substanciais e representar negativamente as externalidades da produção. Impostos ou taxas poderão ser impostos nas práticas que resultam em danos para a sociedade ou utilizando subsídios para promover métodos alternativos.”

Dietas sustentáveis são o caminho

Salienta-se no estudo do CSIPP, as virtudes das dietas sustentáveis como modelos a seguir, dando como exemplos, a Dieta Mediterrânica e com especial ênfase na Nova Dieta Nórdica.

Dieta Mediterrânica

De salientar que as atuais dietas convencionais realizadas nos países de clima mediterrânico estão muito desviadas daquilo que caracteriza a Dieta Mediterrânica.

A Dieta Mediterrânica providencia um dos modelos de dietas sustentáveis. Sendo descrita e documentada como um modelo nas dietas saudáveis, uma vez que a adesão a esta está associada a uma redução do risco de doenças crónicas, e uma redução em todas as causas de risco e de mortalidade das doenças cardiovasculares e cancro.
A Dieta Mediterrânica é caracterizada por uma grande ingestão de cereais, vegetais, legumes, frutas, peixe e azeite. Uma ingestão bastante moderada de álcool e uma ingestão bastante reduzida de carne e lacticínios.
Por exemplo, se na Espanha houvesse uma adesão à Dieta Mediterrânica por toda a população, haveria reduções consideráveis nas emissões de gases de estufa (72%), na terra utilizada (58%), energia despendida (52%) e água (33%) comparando aos atuais padrões de consumo.”

Nova Dieta Nórdica

Ao passo que a Dieta Mediterrânica é tradicional, a Nova Dieta Nórdica foi desenvolvida para integrar princípios de saúde e sustentabilidade ambiental, em acordo com cientistas e chefes de cozinha.

Enquanto a Dieta Mediterrânica é uma dieta tradicional, a Nova Dieta Nórdica foi desenvolvida por cientistas e chefes, integrando desde o princípio, a sustentabilidade ambiental e a saúde. A Nova Dieta Nórdica é caracterizada por uma ingestão elevada de cereais integrais, vegetais, legumes, oleaginosas, frutas e peixe, e uma baixa ingestão de carne comparativamente ao consumo médio. (…) A adoção da Nova Dieta Nórdica melhoraria 16 indicadores ambientais num ciclo de vida (desconsiderando o sistema de produção).
Para além das questões de saúde e ambientais, a Nova Dieta Nórdica tem em conta a origem dos alimentos, a identidade cultural e o processamento envolvido nos alimentos.”

O que caracteriza o biológico e o convencional

Entende-se como biológica a agricultura e os alimentos, nas quais o seu cultivo não é baseado na aplicação abusiva de pesticidas, nem em monoculturas (cultivo de um único alimento num terreno). Os alimentos biológicos correspondem aos alimentos tradicionais que alimentaram a espécie humana ao longo de milhares de anos. A agricultura biológica baseia-se em técnicas ancestrais de cultivo, acrescentando alguma inovação pela tecnologia e investigações mais recentes. Dá relevância a pesticidas naturais e outras técnicas engenhosas de controlo de pragas, incentivando a biodiversidade e as policulturas (cultivo e integração sinérgica de vários alimentos por terreno).

Entende-se como convencional a agricultura e os alimentos que se tornaram comuns após a segunda guerra mundial. Baseada e essencialmente dependente, do uso de pesticidas e caracterizada por monoculturas. De salientar que muitos dos pesticidas e conservantes, foram inicialmente desenvolvidos com o propósito de servir como armas químicas durante as grandes guerras, sendo agora reutilizados em formas diluídas ou semelhantes, nos alimentos.

Biológico é menos tóxico

Os resíduos tóxicos dos pesticidas são comparativamente mais baixos em alimentos biológicos. Os alimentos convencionais tendem a apresentar índices de contaminantes e de concentrações tóxicas acima do limite máximo legal.

Uma enorme vantagem da produção biológica dos alimentos é o uso restrito dos pesticidas sintéticos, o que leva a baixos níveis residuais nos alimentos e como tal, uma menor exposição de pesticidas aos consumidores. Também reduz a exposição tóxica aos agricultores e a exposição derivada às populações rurais. De acordo com o relatório mais recente da EFSA, sobre resíduos de pesticidas em amostras de alimentos europeus, foram encontrados resíduos em 44,4% dos alimentos convencionais (2,7% acima do limite máximo legal) e em 15,5% dos produtos biológicos (0,8% acima do limite máximo legal), indicando que a exposição aos pesticidas nos alimentos biológicos é comparativamente baixo.”

Biológico melhora a imunidade

Dá igualmente referência a outros estudos que apontam para uma melhor resposta do sistema imunológico quando os alimentos são biológicos.

Num dos melhores estudos em animais, criou-se dois grupos de galinhas dando-lhes alimentos biológicos e alimentos convencionais. No grupo alimentado por alimentos convencionais as galinhas tiveram uma taxa de crescimento mais rápida. Porém, às nove semanas ambos os grupos foram expostos a um desafio imunológico, sendo injetadas com uma proteína estranha. O grupo das galinhas alimentadas com alimentos biológicos teve uma reação imunológica melhor, com uma recuperação mais rápida comparativamente ao grupo de galinhas alimentadas com alimentos convencionais.”

Biológico para longevidade e fertilidade

Surgem também apontadores de que os alimentos convencionais poderão afetar a longevidade e fertilidade dos progenitores, causando igualmente efeitos nos descendentes ao nível do sistema imunológico, endócrino e na fisiologia.

Num estudo sobre duas gerações de ratos, avaliaram-se quatro caraterísticas em condições controladas, contrastando processos de produção, biológicos versus convencionais. Demonstrando que o sistema de produção afeta a nível fisiológico, endócrino e os parâmetros imunológicos, dos descendentes. Os efeitos observados foram na sua maioria causados pelos regimes convencionais.”

Num estudo recente, moscas da fruta foram criadas com duas rações distintas, biológica versus convencional, feitas com quatro alimentos : batatas, passas, bananas ou soja. A fertilidade das moscas da fruta ficou significativamente maior quando alimentadas com a ração biológica, independente dos quatro alimentos escolhidos. Adicionalmente, também aumentou a longevidade das moscas alimentadas com ração biológica para três dos alimentos.”

Preocupação pela falta de estudos e a permissividade de alguns

O estudo alerta com preocupação, para as lacunas na avaliação de riscos pela mistura de pesticidas (efeito cocktail) e os potenciais efeitos cancerígenos, perturbações endócrinas e neurotoxicidade. Apontando a falta de estudos independentes e de as falhas nos dados serem aceites com demasiada facilidade.

Os regulamentos para avaliação de riscos dos pesticidas atualmente praticados na UE são abrangentes, uma vez que um grande número de efeitos toxicológicos é abordado em estudos experimentais com animais e outros. Ainda assim, existem preocupações de que estas avaliações de risco são inadequadas para abordar exposições mistas, especificamente para efeitos cancerígenos, bem como os efeitos da perturbação endócrina e da neurotoxicidade. Além disso, há preocupações de que os protocolos de teste ficam à margem de ciência independente, estudos da ciência independente não são totalmente considerados e as lacunas nos dados são aceites com demasiada facilidade.”

Desenvolvimento cognitivo afetado pelos pesticidas

Especialmente nocivos quando a exposição ocorre nos primeiros anos de vida e durante a gravidez, ao afetar o desenvolvimento cerebral. Havendo indícios de uma redução do QI (coeficiente de inteligência).

Visões recentes sobre os efeitos tóxicos pela exposição aos pesticidas sugerem que a exposição nos primeiros anos de vida merece grandes preocupações, especialmente a exposição durante a gravidez que pode danificar o desenvolvimento cerebral.
A maioria dos inseticidas são desenvolvidos para serem tóxicos ao sistema nervoso do inseto, mas os seres vivos dependem de processos neuroquímicos semelhantes e portanto podem ser vulneráveis a todas estas substâncias. Para além dos inseticidas, os estudos experimentais tem sugerido, os potencias efeitos adversos de muitos herbicidas e fungicidas, no sistema nervoso.”

Pelo menos 100 pesticidas diferentes são conhecidos por causar adversos efeitos neurológicos, e todas estas substâncias devem ser suspeitas de causarem danos no desenvolvimento cerebral.
(…) Um dos resultados é o défice cognitivo expresso por perdas de pontos de QI. A evidência combinada sugere que a exposição atual a certos pesticidas na EU poderá custar €125 biliões por ano, calculando as perdas na esperança de vida originadas pelo baixo QI, da exposição durante gravidez. Este cálculo é uma estimação por baixo, pois não contabiliza os contributos dos pesticidas para o desenvolvimento de doenças permanentes como a doença de Parkinson, diabetes e certos tipos de cancro. Apesar da evidência científica estar incompleta, dados substanciais apontam para extrema vulnerabilidade do cérebro em desenvolvimento, à exposição a pesticidas.”

Os perigos dos pesticidas têm sido subestimados

Em análises comparativas entre alimentos biológicos e alimentos convencionais duas evidências tendem a surgir. Mesmo em alguns alimentos biológicos é possível encontrar resíduos ou traços de pesticidas. Porém, as percentagens tendem a ser largamente menores em relação aos convencionais.

Como consequência da reduzida exposição a pesticidas, os alimentos biológicos contribuem para evitar efeitos adversos na saúde e os custos associados para a sociedade, assim como outros custos externos ocultos relativos ao uso dos pesticidas, como recentemente revisto, e que têm vindo a ser imensamente subestimados.”

"Foi realizado um inquérito em 2013, na região de Baden-Württemberg, Alemanha. Utilizando uma amostra de vegetais e frutas, 253 biológicos e 1803 convencionais, revelando enormes diferenças no nível residual de pesticidas. Enquanto, apenas uma pequena percentagem de produtos biológicos mostraram mais de 0,01mg de pesticidas por kg de colheita, três-quartos das frutas e vegetais produzidas convencionalmente estavam significativamente contaminadas."

Foi realizado um inquérito em 2013, na região de Baden-Württemberg, Alemanha. Utilizando uma amostra de vegetais e frutas, 253 biológicos e 1803 convencionais, revelando enormes diferenças no nível residual de pesticidas. Enquanto, apenas uma pequena percentagem de produtos biológicos mostraram mais de 0,01mg de pesticidas por kg de colheita, três-quartos das frutas e vegetais produzidas convencionalmente estavam significativamente contaminadas, (versão traduzida ; Fonte : FiBL)”.

O Cádmio tóxico e o Fenólico protetor

De um ponto de vista meramente nutricional não foram encontradas diferenças relevantes entre alimentos biológicos ou convencionais. No entanto, factores como a toxicidade ou a existência de certos químicos, propriedades e aspetos não nutricionais, reforçam a importância na saúde física e mental de consumir produtos biológicos.

O cádmio é tóxico para os rins, pode desmineralizar os ossos e é cancerígeno. A exposição geral da população ao cádmio está no limite, e nalguns casos acima, dos níveis toleráveis. Portanto a exposição a este tóxico deverá ser reduzida. Para os não-fumadores, a alimentação é a fonte principal de exposição ao cádmio, sendo os cereais e vegetais os que mais contribuem.”

Apesar de se acreditar que os compostos fenólicos têm um efeito protetor contra certas doenças crónicas nos seres humanos, ainda não é possível traduzir essas diferenças em benefícios de saúde específicos, pelas colheitas de ambos os sistemas. ”

A maioria dos aspetos da composição das colheitas, incluindo vitaminas e minerais, não são afetados pelo tipo de agricultura empregue. Se são, é apenas até um certo ponto. Da perspetiva das recomendações meramente nutricionais, que geralmente apenas consideram os macronutrientes, vitaminas e minerais, não haverá razão para preferir alimentos biológicos em comparação aos alimentos convencionais, ou vice-versa. Existem evidências, que as concentrações dos compostos fenólicos são aproximadamente 20% maiores nas colheitas biológicas. Existem também indicações de que as colheitas biológicas, especificamente as de cereais, contêm menos cádmio que as colheitas convencionais.”

A influência no tratamento animal

Os animais adoecem de formas diferentes em quintas biológicas e em quintas convencionais. Nas quintas biológicas a predominância vai para doenças por parasitas, devido ao maior contacto e atividades ao ar livre por parte dos animais. Nas quintas convencionais a predominância vai para doenças respiratórias relacionadas com o confinamento e o ar saturado. Tem vindo a ser bem demonstrado que a ração dada aos animais tem influência no leite, ovos e carne que geram. Havendo indícios de benefícios, ao dar ração biológica também aos animais.

Experiências em animais sugerem que compostos idênticos de ração, de produção biológica ou convencional têm diferentes impactos no desenvolvimento precoce e na fisiologia dos animais.”

Tem sido bem demonstrado que o regime de ração na criação animal se reflete no leite, ovos e carne, ao nível da composição dos ácidos gordos. Comparativamente, uma ração contendo mais ervas resulta num aumento do conteúdo de ácidos gordos Omega-3 na carne, ovos e leite.”

No estudo KOALA realizado na Holanda foi demonstrado que o leite materno das mães que ingerem alimentos biológicos possui níveis mais elevados dos ácidos gordos do que comparativamente às mães que preferem alimentos convencionais. Níveis mais elevados destes ácidos gordos estão associados a um menor risco de doenças alérgicas durante a infância.”

Vários estudos têm demonstrado que os padrões de doenças são geralmente diferentes em quintas biológicas comparativamente a quintas convencionais. Os animais das quintas convencionais são mais propensos a desenvolver doenças respiratórias, relacionadas com o confinamento e o ar condicionado (por exemplo, a má ventilação). Os animais das quintas biológicas são mais suscetíveis a doenças relacionadas com parasitas devido às suas atividades ao ar livre.”

Conclusão

Momchil Nekov (membro e presidente do STOA) concluiu o encontro realizado em Dezembro de 2015, sublinhando que a natureza e as pessoas são partes integrantes de um mesmo ecossistema :
« O que é bom para o ambiente também é bom para a saúde » ”

FONTES

alqimia.org/wp-content/uploads/2017/01/efeitos-saude-biologicos.pdf (documento resumido – em português)

www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/STUD/2016/581922/EPRS_STU(2016)581922_EN.pdf (documento original e integral – em inglês)

www.fibl.org/en/themes/lebensmittelqualitaet-sicherheit/facts-about-the-quality-of-organically-produced-food.html (Estudo do FiBL — Instituto Alemão de Pesquisa da Agricultura Biológica)

eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:32003R1831&from=PT (Regulamento do Parlamento Europeu e do Conselho de 22 de Setembro de 2003, relativo aos aditivos destinados à alimentação animal)

epthinktank.eu/2015/12/23/does-organic-mean-healthier/ (European Parliamentary Research Service Blog — Does Organic Mean Healthier?)

www.agrobio.pt/pt/parlamento-europeu-publica-estudo-sobre-efeitos-da-alimentacao-e-agricultura-biologica-na-saude-humana.T1328.php (Agrobio — Associação Portuguesa de Agricultura Biológica)

STOA@ep.europa.eu (contacto email do Centro de Investigação do Parlamento Europeu)

2017-01-23T14:02:38+00:00

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