Bem-Servir

O servir no casal é essencial a que a relação sirva. Ao amor o amor lhe basta, porém na relação requer-se servidão. Esta servidão não é uma algema é uma ligação, a partir da qual o sagrado realiza-se por meio de conexões afetuosas e de bem-cuidar. Há uma troca, e nesse sentido é convencional ou “providencial”, porém o sentido não é a troca. A troca é simplesmente o serviço. E este deve servir o amor, tão simples é assim.

Existe uma longa tradição cultural de degenerar o amor. De empobrecer a qualidade. De desvirtuar o divino. Desperdiçar o sacrifício. De golpear o amor para roubar umas fatias. Isto ocorre por equívocos e aproveitamento em proveito próprio, sem consideração pelo próximo. Servir o outro verdadeiramente, é servir o nós. Mas porque nos inferiorizamos e reduzimos na verdadeira estima, empobrecemos o que devia ser enriquecido. A verdadeira riqueza não é fruto do que roubamos para nós, em detrimento do próximo. Nem tão pouco é a riqueza que entregamos na anulação do nós.

Os rituais são criados para nos recordar, porém sem o devido alcance de quem nestes participa, tornam-se meramente automatismos sem sentido, realizados por convenção.
As palavras são ditas para nos levar ao entendimento, porém sem o devido alcance de quem participa, o seu real valor é desviado para sentidos vagos e por vezes antagónicos.

A verdadeira riqueza é fruto da nossa entrega e não daquilo que entregamos.
É fruto da nossa dedicação e não daquilo a que dedicamos.

O que verdadeiramente cura na canja, é o amor que a avó lá coloca.

Servimos um campo de cultivo e este a nós serve. Esta é a possível bênção e abundância da relação. Da corrente de afeto e da ligação que é de amor. Retirado o amor e o afeto, a corrente torna-se objeto de prisão, perde-se então a ligação e surge a posse, o amor torna-se então condicional, minguando progressivamente ao amor interessado, interesseiro, possessivo, ódio e até ao seu oposto, o medo.

Damos suporte e recebemos suporte, como duas heras entrelaçadas que em conjunto desenvolvem-se, sem nunca se prenderem e sempre tocando-se mutuamente. O resultado desta relação que não se apropria, é a abundância.

Quando deixamos de ser pelintras do amor, da riqueza e do sagrado, a abundância e confiança é geral. Quando somos pelintras no amor, na riqueza e no sagrado, a escassez, a miséria, a crise e a desconfiança toma conta.

Em função da qualidade de qualquer relação, poderá desenvolver-se : a esperança, a bem-aventurança, o confronto e a dança. Ou faltando o brio na qualidade, poderá desenvolver-se : o desespero, o infortúnio, o conflito e as profundas feridas.
Poderemos alimentar a riqueza em nós ou a rutura dos nós. Com a tormenta quebram-se os laços que não serviam.

Quando todos somos serventes que servem com nobreza, a abundância e a equidade é geral. Tudo é realizado por uma voluntária vontade.

Quando todos somos reis que servem-se do reino, a escassez dos recursos materiais e imateriais, abunda. Tudo ocorre em esforços para satisfazer os desejos, a cobiça e a ambição. Todos querem ser servidos e no fim ninguém serve. Surgirão então as medidas para gerar as justiças, e as injustiças que lhe são próprias. Pois na terra do olho-por-olho e dente-por-dente, abundam cegos e desdentados.

Em justa medida poderemos ser todos reis do nosso reino, se a realizar a ação mais nobre, que é a de servir o reino. Sendo reis deveremos abdicar da coroa e sendo serventes deveremos proteger a nossa nobreza. Tudo presta mas nem tudo nos serve.
É assim o sagrado-ofício, o sacro-ofício, o sacrífico de servir o sagrado pela forma.

A forma como servimos apresenta-se como divina, tem brio, qualidade, amor e cuidar. Realizar com brio dando o melhor de nós, na justa medida de a quem serve. A quem nos presta e para quem prestamos. Entregamos a quem sabe cuidar, a quem sabe apreciar e valorizar.

Se não o fizermos não estaremos a servir ajustadamente. Simplesmente desperdiçamos valor, empobrecendo-o.

Porém é também o sacro-ofício o de doar ao desperdício. Quando este ocorre por via do trabalho e nunca do esforço. Doamos a abundância, não a necessidade.

O necessário entregamos, a quem melhor saiba cuidar. Pois é precioso.
O valor é dado a quem verdadeiramente saiba apreciar. Pois é inestimável.
Quando aprendemos a estimar o valor, todos os preços perdem o sentido.

Abriga, sem obrigar.
Tolera, sem ser condescendente.
Confronta, para resolver os conflitos.
Cede, protegendo.
Partilha os frutos, não a integridade.

A árvore partilha os frutos, mas não entrega os ramos. Abdica das sementes, mas não do tronco. Podes cheirar-lhe as flores mas não arrancar, a raiz.

Assim como a árvore, cada um de nós deve doar a sua qualidade. Damos sombra, damos ar, damos os frutos do que em nós pesa. Damos o cheiro das nossas flores e das pétalas entretanto findas. Damos o orvalho que em nós se condensa, da qual bebemos e vertemos já contentes, contentando outros com a nossa saciada alegria. Podemos abrigar alguns entre os nossos ramos, mas os ramos que damos são os que cedem por si. Bebemos luz e purificamos o ar. Este é um dos trabalhos sagrados de todo o ser.

Assim bebe da luz e transforma. Aquilo que transformas, deverás servir ao meio, ao bem-comum. E do bem-comum, pelo meio somos beneficiados.
Cuidamos e servimos, doamos generosamente protegendo dos abusos.

Servimos sem permitir que se sirvam os que não estão pelo serviço.
Cuidamos e servimos, cuidando do bem servir e do bem-servir pelo bem-cuidar.

Nos mil beijos que já deram e nos mil muitos que darão, um punhado tende a assumir especial gosto pelo valor que lhe colocam : O primeiro, o da união e os de entrega genuína com devoção.
Podem-se os devotos entregar em beijos.

2017-05-10T00:10:32+00:00

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