Há cerca de 43 anos dois seres juntam-se, reúnem trapos e arrendam um apartamento. Para a renda vai todo o ordenado dele, outro tanto do ordenado dela e do que sobra, amanham-se. Têm um colchão para dormir, um tanque de roupa, um fogão e um ao outro. Passa um ano até conseguirem o suficiente para comprar um frigorífico e volvidos outros dois conseguem o suficiente para a máquina de lavar roupa. Pela mesma altura tiveram o primeiro filho e oito anos depois vim eu.

Partilho quarto com o meu irmão, durmo na gaveta de baixo e ele em cima. De uma parede a outra, estendem-se prateleiras de livros até ao tecto e secretamente, temo que um dia me caiam todos em cima durante o sono. Ao mesmo tempo que sinto uma curiosidade gigante de ler e absorver tudo o que estes contenham. De madrugada, enfio-me na cama dos meus pais e fico assim aninhado entre os dois, enquanto não se levantam. O rádio de cabeceira desperta pouco depois e ainda que familiar, desagrada-me o som estereofónico. Sai o meu pai antes do sol nascer e da cozinha vêm o cheiro de comida acabada de fazer. Antes de ser enfiada na marmita para o almoço, aproveito e como um pouco do arroz com ovos mexidos que sobra, seguindo-se um segundo pequeno-almoço de pão e leite. Vêem-se já os primeiros raios de sol, é hora de sair.

Com os anos vou entendendo que a montanha à minha frente não é o norte e que o Igloo que se encontra no seu topo, é um palácio visto há distância.

Dos 8 aos 16 anos vou imaginando o que faria se a casa começa-se a arder “Que salvaria eu?”. Mentalmente, aumento o fogo e encurto o tempo. Imagino-me a jogar coisas pelo terceiro andar para as salvar, embora por mais que imagina-se a aparelhagem a cair, via-a sempre a esfodaçar-se toda contra o chão. Penso também se sobreviveria ao salto e como seria quebrar uma perna. Os anos passam e na minha imaginação vou reduzindo os bens que salvaria enquanto tento salvar o essencial. Pouco a pouco vou deixando ficar, agarro apenas a carteira com os documentos e o dinheiro que contenha, o resto pode arder. Por fim, compreendo que nada é mais que suficiente ! Levo apenas o corpo e a vida que este protege. A partir da vida e das cinzas cria-se o espaço para renascer. Desse momento em diante nunca mais fui visitado pela ideia da casa a arder. Comecei a sentir algo de inspirador no vazio, nas cinzas e telas brancas. O universo inteiro tornou-se o potencial para um mar de possibilidade.

Mais 18 anos passaram e a família foi-se instalando em diferentes lugares. 43 anos depois (34 para mim), deixamos esta casa. Arrumo as trouxas e sorrio ao perceber o quanto simplifiquei. Consigo lembrar-me de todos os objectos que tenho, entre baús e móveis leves, livros e roupas, cabe tudo num carro. Sinto também que se tudo isso desaparecer está tudo bem. Vim ao mundo careca, nú e sem dentes. Estou sempre pronto para renascer.
Olho a casa vazia e penso “que grande pinta!”. Três coisas deixam-me saudade nesta casa e sorrio ao aperceber-me que todas posso recriar : a vista, a pintura e o mantra da gratidão.

Let it go, let it flow !

2017-11-29T23:37:59+00:00

Comente com gosto

%d bloggers like this: