Cada povo queixa-se dos seus defeitos (…) por outro lado, acreditam ter sempre a melhor comida do mundo e que apesar dos problemas, “não há terra melhor que a nossa”.

Um dos princípios que ouvi pela primeira vez na filosofia macrobiótica foi “o mapa não é o território”. Incitando a que tenhamos um espírito curioso e experiencial, procurando mais a prática do que a teoria.

Apela a que não nos apeguemos tanto ao conhecimento oco e crente, pois a seu tempo, todas as crenças embrutecem-nos. Crente no wikipédia, crente na receita, crente na televisão, crente no “especialista”, crente na escola, crente na instituição, crente na revista, crente no credo, crente na ciência, crente no p<0,05, crente no senso comum e tanto cremos que deixamos de “ver”. Assim incita-se a que desenolvamos um espírito non credo. De dar o crédito sem desenvolver a crença e no tempo confirmar por nós próprios, através da experiência. Todo o mapa será sempre uma representação redutora da riqueza e da vasta informação presente ao território.

Aos vinte anos comecei a viajar, movendo todos os esforços e recursos nesse sentido. Ainda hoje, a viagem, continua a parecer-me dos bens mais valiosos e dos melhores investimentos que podemos realizar. Deixo aqui algumas reflexões sobre o que tenho observado nestas duas décadas pelos cantos do mundo, entre o cá-lá ou lá-cá, dependendo do ponto de vista.

* Por vezes pode ser bastante duro, ainda assim vale a pena e a alma agradece este movimento expansivo. Crescemos pelo desafio, a observação das diferenças e pela capacidade de integrar e aceitar a experiência.

* De um modo geral, os meios de comunicação, que inclui televisão, revistas, jornais, livros, documentários, críticas e pontuações, tendem a incutir crenças muito distanciadas da realidade. São fontes mais de entretenimento do que real informação. Baseiam-se em coisas com um fundo de verdade, porém tão distorcidas e enviesadas que se tornam maiores que uma mentira.

* Os seres humanos são bons. Receber ajuda, ser guiado e apoiado são a regra e não a exceção. Existe maldade, porém não se concentra num grupo ou zona particular. Simplesmente há sempre um parvo ali no meio de um punhado e em toda a aldeia vemos sempre as mesmas “novelas” a nível global.

* Cada grupo, região, país e continente tende a viver iludido numa mundividência coletiva acreditando que vêem melhor que todos os outros. Todos crêem genuinamente saber bem a realidade e que a lógica que seguem é universal e a verdadeira. O que observei numa base sistemática é que vivemos dentro de aquários de crenças, acreditando que são o oceano. Parece-nos a realidade simplesmente porque nunca observamos outros quadros de referência, os que nos rodeiam dizem o mesmo e achamos que conhecer os mapas é saber o território.

* Cada povo queixa-se dos seus defeitos, problemas sociais e culturais. Por outro lado, acreditam ter sempre a melhor comida do mundo e que apesar dos problemas, “não há terra melhor que a nossa”.

* Todos os povos seguem a mesma fórmula a informar sobre o estado do “mundo”: 85% local, 10% regiões vizinhas, 5% cascos de rolha. Transmitem maioritariamente notícias sobre o que se passa localmente, seguindo-se um pouco de notícias sobre países de fronteira e dando depois uma ou duas notícias vagas de países a “cascos de rolha” ou “no fim do mundo”. Com isto, cada povo é iludido em crer que tem uma visão bastante clara sobre “a realidade”.

* Cada povo acredita ser o mais bem informado. Mesmo desconfiando que que pode haver alguma censura no seu país, possuem sempre a crença de que não será assim tanta e que nos outros países certamente é pior.

* A nossa mundividência, isto é, a forma como interpretamos o mundo é fruto da nossa formatação cultural. Ao trocar de cultura, a mundividência muda, a perspetiva é outra e outras realidades revelam-se.

* Turistas tiram mil selfies, vivem ansiosos por ir aos sítios mais populares e de ver o máximo de coisas em pouco tempo. O resultado é terem uma experiência bastante superficial. Estão focados em coisas como “eu estive lá” ou “eu experimentei aquilo”. Seguem lógicas como “Se em Paris é obrigatório visitar a Torre Eiffel”, “Se vou à China então tenho de ir à muralha”, “Se vou ao Peru tenho de tomar ayuashka” e outros “must see” e “must do”.

* Viajantes inexperientes tendem a presumir demasiado e a prestar pouca atenção ou preparação. Encontra-mo-los entre dois extremos : na tentativa nervosa de controlar e planear tudo ou numa visão alienada e romântica de que o universo cuidará de tudo por estes. Tem um coração aberto mas uma mente fechada. A seu tempo, se continuarem a viajar ganham experiência para relaxar um pouco e também para “abrir a pestana”.

* Viajantes levam uma mente de principiante, tomam providências sobre o essencial, dando espaço para adaptarem-se ao imprevisto que sabem que haverá. Não tem pressa de chegar, nem se importam de ficar à conversa uma tarde com um nativo, na paragem de autocarro mais banal e feia do mundo. Fazem os preparativos para que tudo possa fluir, improvisando e adaptando-se com os imprevistos ou inconvenientes.

* Não viajamos para escapar ou confirmar o que pensamos já saber. Viajamos para viver profundamente e ser transformados pelo inesperado.

* Cada local contêm em si mil locais a cada instante e um tempo histórico que cria um bilião de possibilidades em cada terra. Existem mil cidades de Paris, a que se visita de Metro é diferente da que se visita a pé. Paris de 1998 é uma cidade diferente de Paris de 2004. Tudo se altera a cada estação, a cada semana, todos os dias ! Mudando a rua, a época, as pessoas, o ângulo e a terra é outra.

Impressões mais pessoais

Viajei Marrocos de norte a sul cerca de trinta vezes, vivi na China cerca de um ano e percorro Portugal de lés-a-lés desde que nasci. Significa então que conheço bem estes locais ? Não. O que conheço é ínfimo face a tudo o que há por ver. Para além de que neste preciso momento tudo o que possa ter visto ontem já está desactualizado em menor ou maior grau.

Vinte anos a viajar regularmente, sessenta viagens para vinte destinos diferentes, em quatro continentes moldam a mundividência que tenho atualmente. Com outros destinos e mais anos, pode e deve mudar. Quanto mais viajo mais noção ganho do todo que não conheço e o mundo revela-se sucessivamente maior.

Um terço das viagens realizei sozinho, outro terço com companhia e o restante a trabalhar como guia de grupos de uma a duas dúzias de pessoas. Estes modos moldaram a perspetiva com que observo agora. Com outros modos, pessoas e interações, pode e deve mudar.

Dormi em hotéis de cinco estrelas a um milhão, colchões enchidos a esponja a ou forrados a pedra. Acolhido por empregados de pousadas, desconhecidos na rua ou bancos de estação. Estes espaços afetaram a forma como entendo agora. Com outras instalações pode e deve mudar.

Viajei com finanças desafogadas, contas a zeros e bolsos vazios, planos traçados ou em modo errante, com e sem portos seguros. Com outras condições pode e deve mudar.

Não creia em nada do que lhe digo, experimente por si e poderá também criar experiências só suas. Mantenha-se aberto e num espírito non credo principalmente para consigo, uma vez que o grande ilusionista está aí em si.

Aproveite as indicações que aponto, poderão ser bastante úteis e ajudar o bastante. Da mesma forma segui conselhos de outros viajantes e foram de grande valia. Porém lembre-se que o “mapa não é o território”.

Dito isto é caso para dizer : Faz-te à vida e põe-te nas p… no… no caminho. Põe-te no caminho !

2017-12-02T11:58:30+00:00

Um comentário

  1. Telmo 10 Outubro, 2017 em 5:54 - Responder

    Um artigo com Muito conteúdo valioso para reflectir, aprender e repescar antes de cada viagem. Mesmo que a viagem seja ir à frutaria e voltar. Xie.xie ni

Comente com gosto

%d bloggers like this: