2009 ║ 1800 horas ▒ 

Aos 29 anos visto fato e gravata, trabalhando para uma multinacional de consultadoria. Se no primeiro mês encaro como uma experiência curiosa, nos seguintes começo a sentir como uma abominação ou perversão da minha natureza. Estou a consumir-me em algo que não me faz vibrar, numa empresa que aparenta mascarar com marketing, a falta de escrúpulos na sua demanda pelo seu único fim, a obtenção de mais e mais dinheiro, mais e mais poder. No email recebemos indicação das empresas que são nossas adversários. Os inimigos a derrotar numa guerra. O sonho do templo volta e com este surge a hipótese de ingressar num programa de treino num templo daoista, o Templo dos 5 imortais, nas montanhas de Wudang, na China. Despeço-me, queimo literalmente a gravata, começo a vender tudo o que algum dinheiro pudesse gerar, para assim partir na realização de um sonho antigo.

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Informo a namorada, pais e irmão. Todos me apoiam e conto sair de fininho, ir e voltar, sem que ninguém saiba. Em pouco tempo a notícia alastrou-se e dou por mim numa festa de despedida. E lá vou, compro o voo de ida e a volta para daí a 6 meses. Resta-me o suficiente para dois ou três meses e a crença de que o universo providenciará o necessário no tempo certo.

Aterro em Hong Kong, apanho um barco que me leva a Macau em duas horas. Aí fico uns dias e prossigo, por entre caracteres estranhos e pessoas que entendem tão nada o que lhes digo como o que me dizem. Viajo num autocarro cinco horas, caminho meia por entre uma cidade desconhecida, apanho chuva até aos joelhos e sorrio feliz. Enfio-me num comboio por dez horas e aí durmo. Pela manhã troco e descubro o seguinte. O comboio está lotado e dou por mim junto a um lavatório de um compartimento de um metro quadrado e três chineses que me sorriem alegres. Sento-me em cima da mala e assim prossigo viagem por mais onze horas.

Chego à cidade e dois discípulos do templo aguardam-me. Apanho um autocarro à pinha e uma hora depois, chegamos à vila. Na vila vou até uma esquina e subo para uma moto-táxi. Meia hora depois chego à aldeia e dou início à caminhada. Duas horas montanha acima, por entre os trilhos e chego ao templo. Dois dias de descanso antes de dar inicio, ao árduo treino e a vida que aguarda.

Uma vida de austeridade, de poucos confortos e com tudo o que é essencial para o necessário contentamento. Visceral e soberbo. Do mundano ao extraordinário. Doze horas diárias de treino físico intenso, diminuídas para metade quando substituídas por treino teórico.

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PROGRAMA

  1. Alquimia do Nascer-do-Sol (Sun Gazing)
  2. Meditatição em Pé (Zhan Zhuang)
  3. Respiração
  4. Longevidade (Taiji Qigong)
  5. Alquimia Interna
  6. Técnicas básicas de Artes Marciais
  7. Condicionamento da força e resistência
  8. Formas (Sequências de movimentos)
  9. Métodos de Caminhar
  10. Métodos de Emissão de Poder (Fa Li)
  11. Camisa-de-força Qigong (Da Gong)
  12. Tuishou/Push hands (mãos coladas) e sparring
  13. Estudo da teoria Daoista envolvida nas formas e técnicas
  14. Cerimónia
  15. Artes Curativas
  16. 5 Tons de Musica Curativa (instrumentos, energia/vibração, canção e teoria)
  17. Medicina Tradicional Chinesa (meridianos, pontos de acupunctura, fórmulas com plantas/fitoterapia, massagem)
  18. Colher plantas silvestres comestíveis e medicinais
  19. Qigong Curativo
  20. Música Daoista e Preceitos
  21. Colher e preparar chá local
  22. Estudo de Escrituras Daoistas (Dao De Jing, I Jing, Zao Wan Ke, Hua Hu Jing, etc.)
  23. I-Ching
  24. Ensino da língua chinesa (mandarim)
  25. História Chinesa e Daoista
  26. Jardinagem e agricultura

BALANÇO FINAL → 1800 h  4000€  12 h por dia  durante 5 meses