Em 2003 passei vários dias numa comunidade dos alpes suíços, fundada pelo Mestre Omraam Mikhaël Aïvanhov. Neste centro, o sol, a luz e o silêncio eram considerados ouro. A qualidade na música, no alimento, na fala e no gesto seria prata. E tudo o que fosse realizado na mediocridade seria chumbo. Tão denso e pesado que poderia matar literalmente, ou simbolicamente, pelo embrutecimento que nos causaria o seu peso.

Segundo este e outros mestres, o novo ano começa simbolicamente com o nascer-do-sol. Assim, num centro com mais de 100 pessoas, pelas nove horas da noite encontrava-se já tudo a dormir. Sobrou a neve, uma lareira a crepitar e um profundo silêncio, daqueles que aquece.

Com 23 anos ainda que me fizesse sentido, era-me estranho ir dormir no dia 31 de Dezembro. Assim juntei-me a uma dúzia de jovens da minha idade no exterior do centro, onde poderíamos fazer um pouco 12-Suica-comunidade omraam-011mais de barulho, sem incomodar a comunidade que descansava. Foi uma experiência caricata e insólita. Todos vínhamos de diferentes países, pelo que ninguém sabia bem a que horas “deveria” celebrar.

A conversa era pouca e mais longos eram os períodos em que fitávamos a fogueira.

A comunidade era bem isolada, no cimo da montanha e embrenhada na floresta. Pelas 23h a sensação era de serem quatro da manhã, sentindo-se como um enorme esforço ali estar, apenas para marcar o ponto de termos “chegado” à meia noite. Ninguém soube bem quando foi o segundo, alguns festejaram uma ou duas horas antes com um tímido “yeaaayei”. Outros, ali ficámos durante 10 minutos, sem saber bem se já tinha passado ou não a meia-noite (relógios diferentes com atrasos diferentes). Dez minutos depois daquele período incerto, onde poderia ter estado a meia-noite suíça, começámos aos poucos a despedir-mo-nos uns dos outros. Com um enorme sono, entre a sensação mista de “dever cumprido” e de “que palermice é esta que estou a tentar cumprir”. Todos sabíamos que teríamos de acordar pelas 5h30, para celebrar o nascer-do-sol. Após sete dias naquele ambiente de paz, a própria ideia de fazer uma direta ou descansar menos que o necessário, parecia de uma enorme violência para com o próprio.

Pelos dias e anos seguintes, meditei sobre esta experiência.

O momento não tem transição”

O mestre Omraaam, referia que os doze meses de cada ano, seriam uma repercussão de como teríamos vivido os primeiros doze dias. Assim seria importante, vivê-los com a melhor qualidade de pensamentos, alimentos, ações e tudo o mais. Assim o dia 1 de Janeiro vivido a dormir e a ressacar, irá 08-Suica-comunidade omraam-007repercutir-se num mês de Janeiro semelhante. Em que andamos ali meio zombies com as nossas fracas resoluções de novo ano e um mês longo que parece não passar. Simbolicamente, passamos o mês ressacados e mal dormidos. Parece-me que não é algo literal, simbolicamente tem-me parecido bastante acertado. Com o passar dos anos, comecei também a entender que a nível pessoal o que realmente adoro é aquele dia 1. Meio mundo dorme ressacado a tentar recuperar o sono e um outro mundo passeia-se pela manhã, revigorado e animado. Há uma esperança no ar e uma energia renovada, de malta (des)conhecida que deseja genuinamente “Bom ano!”.

Que farias na meia-noite de dia 31 Dezembro, tendo a certeza que literalmente toda a gente te perguntaria, como irias viver ou terias vivido o teu dia 1 de Janeiro ?

E que literalmente todos virariam a cara com desinteresse, sempre que tentasses falar daquele minuto à meia-noite em que fazias um brinde ou enfiavas 12 frutas murchas no bucho. Responde sinceramente a esta questão e terás a resposta ao teu mais profundo interesse, nesta transição do ano no calendário.

1-Leiria (59)Ao longos dos anos, todos vamos assistindo às cowboyadas da passagem de ano. Todos teremos histórias para contar do mal-disposto, da discussão gerada entre amigos, da batida de carro, da passagem dentro do carro a tentar chegar aquele lugar, das ressacas épicas, do amigo ainda bêbado que mistura ao pequeno-almoço chocapic com vodka (baseado em factos reais).

Um mês antes começa a surgir a inquietação :

Que vais fazer na passagem de ano ? E se fizéssemos…”.

Vais” e “Vamos”, é interessante como o dissimulado interesse pela 2ª pessoa do singular (tu), passa rapidamente ao aparente interesse da 1ª pessoa do plural (nós), pelo interesse da 1ª pessoa do singular (eu) (isto agora parecia um relato de futebol).

Derivado disto, tendem também a surgir mal entendidos e discussões. Existe muita ansiedade no ar e esta sensação de que há uma contagem decrescente para uma bomba que vai rebentar. A ideia coletiva, de que “devemos” estar bem abrigados em algo super cool, naquele último minuto de 31 de Dezembro, caso contrário seremos os seres mais amaldiçoados e solitários do novo ano que se avizinha. Já para não dizer que ficaremos sem jeito nos sete dias seguintes, quando nos fizerem a pergunta fatídica “Então, que é que fizeste na passagem de ano ? (zero segundos de espera para escutar) Eu tive… blá blá blá”

Ao longo dos anos, muitos me perguntam e fazem propostas para a passagem de ano. Talvez julguem que a minha relutância em me comprometer com o programa proposto, deva-se a ter algo em vista melhor. Simplesmente a passagem de ano, não me aquece o coração e menos ainda o interesse. Por vezes lá adiro a um ou outro programa, 1-homem concha_carrorelutante pois sei que na passagem de ano, existe uma espécie de insanidade e stress coletivo. Tenho apenas um requisito, não ter de andar de carro entre as 21h e as 7h da manhã. Álcool, confusão mental, ansiedade, pressa e alienação coletiva, são os ingredientes perfeitos para explicar o aumento brutal de acidentes, neste período em relação ao ano todo.

Acredito que um dia (talvez após este post), escutarei alguém a fazer-me propostas dignas de interesse e que verdadeiramente me aquecem. Coisas como “Como é que vais passar o teu dia 1 ? Que tal, depois de uma noite bem dormida, irmos assistir o nascer-do-sol, tomar um grande pequeno-almoço pela manhã seguido de uma boa caminhada?” Ora aqui está algo que me faria ponderar e criaria um sorriso.

Interpreta-me bem, goza com gosto a meia noite de 31 Dezembro. Cria programas coletivos, goza a tradição à vontade. No entanto, se te gera tensão, ansiedade e implicância em ti ou noutros, pergunta-te :

Moves-te no sentido do que realmente queres ? Ou moves-te no sentido do que te foi incutido “que queres”?

São questões poderosas e que te levam de encontro à tua essência e à tua real vontade. Aquela que brota de amor e real gosto, sem uma pinga de receio ou desgosto.

Interpreta-me bem, o que escrevo acima não é sinónimo de que :

  • Não gosto da passagem de ano
  • Quem festeja a passagem de ano é palerma
  • Fico aborrecido se me fizerem propostas de passagem de ano
  • Isto é uma indireta pessoal a ti, porque uma vez falámos de algo relacionado com a passagem de ano
  • Se dei a hipótese da indireta pessoal é porque é mesmo uma indireta pessoal a ti
  • Gosto de arroz com castanhas e nêsperas em maio
  • Se gosto de nêsperas “em maio” é porque não gosto em junho

Com exceção do penúltimo delírio (arroz com castanhas e nêsperas), se chegaste a alguma das brilhantes interpretações propostas ou algo do género, significa que te faltou brilhantismo na leitura. Aconselho que leias novamente, procurando novas interpretações. Dá largas à imaginação, com o devido respeito e tal, “à vontade não é à vontadinha”.

Em 2011 assisti ao nascer-do-sol por 100 dias consecutivos e novamente em 2013 por 108 dias. Um dos resultados desta experiência, foi começar a sentir literalmente cada dia como genuinamente especial e único. Não existe um “Dia do Homem”, nem de tudo o que é bem presente todos os dias. Pois quando uma realidade se torna sempre presente, deixa de haver necessidade de criar um dia mundial ou um feriado para lembrar esse dia. Natal, Liberdade, Novidade, Parabéns, Dia da Mulher, Dia da Criança, Dia da Árvore, tornam-se presentes todos os dias, sem necessidade de lembrança.

Festeje-se o ano todos os dias. E possamos dizer “feliz novo dia!” todo o ano.