Tenho 3 ou 4 anos, no quintal entre outros miúdos, espreito o motivo do alarido. Num alguidar uma cauda que contorce. Alguém lançou uma pedra cortando-lhe a lagartixa. Fico assim intrigado a observar, a cauda a mexer mesmo após perder parte do corpo. E ao lado, um novo ser que parece uma lagartixa sem cauda. Diante dos meus olhos, um ser transforma-se em dois. O mundo apresenta-se como um sítio misterioso e entre o espanto, procurava entendê-lo ou simplesmente observá-lo.

gosto de tocasSempre que podia enfiava-me em recantos, tocas, caixas, refúgios, cavernas onde poderia recolher-me, escutar o silêncio e sentir.
Observava o coração a bater, a respiração, o acolhimento do espaço, entre o silêncio ou murmúrios externos, como se em mim estivessem. Fechava-me assim dentro do roupeiro, ou em cima deste, dentro de arcas, ou sofás, na ombreira larga de uma janela ou entre mil cobertores e tendas improvisadas.

A minha vizinha e companheira de brincadeiras vai sair e sua mãe sossega-me dizendo que voltam dentro de uma hora. Pergunto-lhe “O que é uma hora?”. Aponta para um relógio de ponteiros e explica-me que “Quando este pauzinho mover-se para aqui passou o tempo de uma hora”. Sento-me e fico assim a olhar o ponteiro dos segundos durante sessenta voltas. Por vezes move-se lento, compassado, noutras acelera-se, outras fica em suspenso por um instante que parece eterno. Descubro assim que o tempo é inconstante e que o peso do tempo, parece depender também do observador.

CandlePelos 9 anos assistia a aulas de meditação na RTP2. Lembro-me da Meditação da Vela, em que sugeriam fixar a concentração numa chama e assim permanecer. Segui as indicações, ficando assim tempos sem fim. Ao apagar a vela, senti que tinha regressado de uma dimensão que me era familiar.

Um ano depois dava por mim a desenhar padrões geométricos de linhas que se cruzavam e relacionavam entre si. Não sabia do que se tratava, fazia-me sentido, expressá-las e criava assim estas teias geométricas pintando-as em pares de potências de dois. Descobrindo em adulto que tinham o nome de mandalas. Fechado no quarto, às escuras, escutava música clássica tentando distinguir cada som, movendo as mãos ou o corpo, em reacção ou para dirigir a música. De início não gostava, no entanto, algo em mim acreditava que ali existia um mistério e assim continuei até aprender a apreciar uma sinfonia.

livro a nova historia de adao e evaAos 11 anos lia a minha primeira enciclopédia “A nova história de Adão e Eva” que descrevia o percurso do Universo desde o Big Bang aos dias de hoje. No final escrevi a minha primeira composição teológica sobre a criação de Deus pelo homem, como bengala psicológica a este. Desenvolvi assim a minha primeira mundividência e argumentos, continuamente refutados ao longo dos anos. Pela mesma idade, completava pela primeira vez um puzzle de mil peças, ficando com a ideia de que muitos desafios tornam-se alcançáveis se persistirmos.

Aos 15 anos terminava uma série de fascículos escritos pelo Dalai Lama, falando sobre o budismo e alguns dos princípios filosóficos orientais. Nesse momento decido que um dia irei a um templo a Oriente, para lá viver uma parte da minha vida, praticar e descobrir um pouco mais sobre o mistério de ser. Ficou como projecto latente, adiado por catorze anos. Pelo meio fiz a escola, a licenciatura, trabalho quatro anos como webdesigner, freelancer, professor e consultor.

gambuzino_estudo (1)Por volta dos 20 anos, escolho tirar uma licenciatura em engenharia informática, não por sentir jeito ou um gosto especial, antes pelo contrário. Sei que é-me difícil, compreender matemática e física. São os únicos livros que não consigo decifrar sozinho. É-me fácil aprender artes, escrever ou estudar as ciências humanas, todas as “logias” e epistemologias. Pelo que me pareceu apenas natural, que perante a minha dificuldade, deveria ingressar num curso, onde pudesse desenvolver o engenho necessário, para mais tarde conciliar com a arte e o humanismo.
Pela mesma altura, faço a minha primeira grande viagem, encontro-me sozinho no deserto do Saara e sinto visceralmente, o paradoxo de que mesmo sozinhos, somos todos um (All.One).

Os primeiros anos de curso são árduos, sinto-me um peixe fora de água e vou-me equilibrando viajando. Todo o dinheiro que reúno tem como fim a viagem e viajo, independentemente dos meios. 2002.Setembro-1Descubro o couchsurfing, as boleias, visito amigos em países distantes e descubro que é possível viajar “sempre”, independentemente dos recursos disponíveis. Vou vivendo na pele a enorme diferença, entre o que é descrito e aquilo que experimento.
Numa dessas viagens, compreendo algo através de uma experiência forte e desse momento então, todos os meus estudos melhoram. Passo de um aluno em esforço que tentava manter-se à tona da água, para um bom aluno que realizava com esforços mínimos. Dessa forma aprendi, que a direcção e o alinhamento, são mais essenciais que o esforço em bruto.

Os anos passam, a vida desenrola-se até que recebo um contacto e o vislumbre de materializar um sonho antigo. A história continua em Templo Taoista — O Início