Mmagia e ilusão são termos utilizados como sinónimos, apesar de serem quase opostos.

A Ilusão é fruto da deturpação da percepção, através de associações que nos desviam o olhar do entendimento. A ilusão deriva da trapaça, da imaginação e dos artifícios da mente.

A Magia é a qualidade natural e emergente a tudo o que existe, sendo evidente ao olhar atento e inocente. A magia brota da verdade, da realidade e dos fenómenos a que chamamos mundo.

Temos uma tendência para deturpar o que vemos. Enviesamos a realidade para convergi-la, a um sentido ou significado que lhe atribuímos pela imaginação. Esta ocorrência deve-se por modelarmos a compreensão mais por associação e percepção, do que por observação e entendimento.

O simples pensamento em salivasalivar… tende a criar-nos saliva na boca (começaste a salivar?). É o poder da palavra, da percepção e da associação. O sino toca e salivamos, como na experiência de Pavlov. Toda a publicidade assenta neste princípio.

A mente viciada, pelos seus múltiplos artifícios, distraí-nos da realidade. Incapaz de compreender a diferença, nesta mente artificial toda a realidade é virtual porém para aquele que retorna à mente pura, diz-se que “despertou” para a realidade, saiu da matriz

Devido a esta tendência geram-se múltiplos equívocos e noções erradas. Somos iludidos tanto de fora como de dentro. Olhamos mas não “vemos”. A mente viciada, pelos seus múltiplos artifícios, distraí-nos da realidade. Incapaz de compreender a diferença, nesta mente artificial toda a realidade é virtual porém para aquele que retorna à mente pura, diz-se que “despertou” para a realidade, saiu da matriz.

Para observar verdadeiramente e entender em profundidade, primeiro devemos observar sem julgamentos, sem pré-conceitos. Saboreamos sem ter ideias, teorias prévias, planos, interesses e preferências. Estando vazios e abertos, recebemos e vemos verdadeiramente. A este estado de observação damos o nome de “Observação Pura” e aos que a conseguem realizar, damos o nome de “Inocentes”. A observação dos inocentes é imaculada, e é por isso têm a “inocência no olhar”.

A maioria de nós antes de saborear algo, já está a fazer caretas, o que denota que já começou a criar pré-conceitos antes de provar, antes de saber já concebe e desta forma enviesa a observação. Levando planos, ideias, expetativas, preferências, gostos e uma mala cheia e pesada, que espaço resta para absorver o quer que seja ?

A resolução é simples, inverter o processo. Regressar à visão inicial. Os sábios chamam a esta qualidade “a mente de principiante” do “inocente”.
Recuperamos a capacidade de “ver” como é, em vez de como imaginamos. Pois nesse caminho encontraremos apenas (des)ilusão.
Restauramos a habilidade de ver, em vez de antever. Pois esse é o caminho do preconceito e da ansiedade.
Sabemos mais (saboreamos) e imaginamos menos.
Ou pelo menos, sabemos primeiro e imaginamos depois.
Ver bem primeiro e só depois prever.

Em cada nova terra faço o reconhecimento apenas de mais um canto da minha casa

Sempre que visito um país uma primeira vez, conheço alguém, ou vejo algo, evito fazer planos, julgamentos prévios, encaixar em pré-conceitos. Primeiro experimento, saboreio, vejo e só depois com base na experiência prossigo para a ideia, a teoria, a imaginação e aí assim mando alguns palpites e faço previsões, os tais planos. Crio rotas e conceitos, assentes sobre o que vi, observei e senti. Em cada nova terra faço o reconhecimento apenas de mais um canto da minha casa.

A primeira vez que visito um lugar não levo listas, não traço rotas, não faço planos. Limito-me a sentir na pele, a observar, mergulho no grande desconhecido como quem acabou de nascer, confio de forma vigilante e atenta. Não vejo pessoas, vejo seres. Não vejo nacionalidades, vejo seres humanos a viver naquela parte da minha terra. Assim, sinto-me sempre entre família.

Há magia em tudo o que existe e tenho duas mãos a servir um coração para prová-lo

Em cada terra faço o reconhecimento apenas de mais um canto da minha casa. Depois faço uma pausa, digiro, integro, enraízo, deixo crescer e ganhar expressão. Torna-se verbal, modelo um conceito e simplifico-o, Na segunda vez que regresso tenho um rumo, levo novas ideias, sonhos e planos… não muitos, o suficiente para explorar mais alinhado. Sempre com um espaço vazio para ser novamente surpreendido, pelo tanto que nunca conheço verdadeiramente. Precisamente por isso, por saber como quem saboreia, acabo sempre por saber. Há magia em tudo o que existe e tenho duas mãos a servir um coração para prová-lo.